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quarta-feira, 16 de setembro de 2026

O Impasse eleitoral e a lógica do voto sentimental

No primeiro turno das eleições de 2022, a soma total dos votos dos candidatos da terceira via não passou dos 9%. Segundo as pesquisas eleitorais deste ano (12/9/2026), esta margem foi superada em uma proporção tão pequena que é incapaz de colocar em cheque as candidaturas Lula e Flávio.

Aqueles, como eu, que esperavam que a polarização iria ceder com candidatos alternativos, de repente se deram conta de que a sociedade brasileira ficou petrificada pela abulia.

E não só em reformas – tão necessárias – mas em rejeição aos escandalosos casos de corrupção. Para ser sincero, corrupção não perturba parte substantiva do eleitorado, porque provavelmente acha que todos os políticos são igualmente corruptos e, mais cedo mais tarde, vão estar na mesma posição daquele em evidência.

Nem o Mensalão, nem o Petrolão e, muito menos, o caso Master, foram capazes de mover os instintos do eleitor em busca de uma alternativa sucessória à altura das denúncias.

Lula e Flávio não são posições políticas, como nos iludem, porém INSTITUCIONALIDADES que estão na própria estrutura de poder no Brasil. São dois modelos de Estado: um bolivariano e pretensamente benevolente e, o outro, o legado do regime militar em que o democratismo oligárquico deixa de existir e as decisões são tomadas sem a correspondente transparência.

Lula é o resultado da extensa tradição socialista com 60 anos de maturação. Esta tradição foi decantada nas universidades, sindicatos, setores da igreja católica, ONGs, empresários de subsídios e funcionários públicos de alto e baixo escalão.

Flávio, seguindo o clã Bolsonaro, recolheu o que sobrou de setores sociais ameaçados, sejam no agro, no comércio e no temor das oligarquias perder tudo o que amealharam pela aventura suicida do bolivarianismo. Recebeu a intervenção providencial do olavismo na elaboração de uma filosofia extraída do anti-iluminismo, muito apropriada para o espírito retrógrado de nosso estatismo de castas, com uma espécie de evangelização das almas perdidas para o acolhimento das Igrejas, e pela construção de uma direita naftalina nos moldes do passado colonial perenialista. Conquistando apoio de lideranças evangélicas nacionais, o bolsonarismo criou uma musculatura política impermeável à alternância política. No mês de agosto, bem antes do registro das candidaturas, mas com candidatos já no panorama de pré-campanha, os influenciadores bolsonaristas afirmavam que Flávio era a única oposição ao PT. Como se fosse possível, na lógica de um pluripartidarismo entumescido, a existência de uma única oposição. O espírito de capelinha comprova uma noção tosca da democracia.

As mudanças tecnológicas no mercado de trabalho não favoreceram atitudes mentais que representassem melhor capacidade de reflexão, porém serviram de consolidação da polaridade. A ascensão de uma numerosa classe de estelionatários toleradas pela ideologia do coitadismo, criou no brasileiro pobre e empobrecido a aspiração ao enriquecimento individual com base na oportunidade, na sorte, na fraude, no desejo inconfesso de levar vantagem no que estiver à mão.

O debate entre as duas correntes guarda uma relação com a lógica medieval. Os argumentos se entrecruzam com a rejeição do valor da crítica como geradora de conhecimento e verdade, em busca da validação unicamente pela negativização do adversário. Cada polo vê o outro como demônio. São lados de uma mesma moeda que vale o preço do cretinismo.

A mente cativa não cede aos apelos da razão. No Brasil, os partidos tradicionais não conseguem sequer eleger ideias porque o eleitor não as tem e, no seu obscurantismo cultural, desconfia de quem sai fora das cativantes promessas repetidas em cada ciclo eleitoral. Apenas elegem pessoas, na esperança de se aproximar daqueles que tudo podem e são a tábua de salvação na dinâmica do patrimonialismo. O resultado é que no Brasil existe duas vertentes culturais das quais nenhum esforço intelectual é capaz de modificar: uma luta permanente entre as heranças macunaímicas e mazzaropianas que estão enraizadas em nossa cultura.

Quando se troca a impessoalidade (e suposta igualdade) da lei por critérios sociológicos de culpabilidade, cabendo ao despossuídos os mesmos favores das oligarquias, a vida política cotidiana se rebaixa ao relativismo em que delitos são aceitos desde que enquadrados num figurino social. É a negação da essência da democracia.


Renan Santos

De todos os candidatos divergentes, o mais enfático, combativo, com uma contundência muitas vezes exagerada, hiperativo e loquaz, é Renan Santos, um verdadeiro tribuno, espécie de inteligência que o Brasil experimentou em poucas ocasiões, como na figura de Rui Barbosa concorrendo duas vezes ao cargo presidencial.

Seu grupo, os Varões de Plutarco de guitarra e rock-and-roll tem, no entanto, mais de dez anos de experiências no combate à corrupção e desatinos da politicalha que consome as energias do país e que só sobrevive as custas de novas tecnologias que chegam para nos aliviar da parálise governamental, espécie de sedativo que nos permite adiar as dores da estagnação econômica num mundo em que não faltam exemplos de sucesso, mas que ninguém na estrutura de poder consegue mobilizar.

Renan tem respostas para tudo. Tem até um plano para acabar com o Centrão. Seu plano de governo é muitas vezes mais coerente do que a soma dos adversários. Porém, lhe falta o entendimento de que no Brasil o FEDERALISMO está morto.

Não se pode combater os desmandos, as inconstitucionalidades cotidianas, com meras substituições. A Sexta República foi sepultada pelas nossas más escolhas e a única solução que poderá nos tirar do pesadelo desta crise consiste em plantar a semente da CONFEDERAÇÃO, uma antiga aspiração que consiste na regionalização do Brasil sem perda da unidade. Não se trata pois de desespero nem tampouco de oportunismo. Os desequilíbrios regionais só poderão ser amenizados se toda a estrutura administrativa for regionalizada, excluindo os órgãos de natureza nacional, como as Forças Armadas, Polícia Federal, Itamaraty e uma representação política simbólica que fale em nome do Brasil, mas sem qualquer poder de interferência no resto das regiões. Mais que acabar com o Centrão, Renan precisa liderar uma campanha para acabar com Brasília. A saída da capital do Rio de Janeiro em 1960 já tinha a premissa de livrar a cidade do lodo moral que se propagava a partir das instituições federais. Voltamos ao mesmo ponto.

Se o Brasil vive o escarmento do sectarismo político, não sinto qualquer constrangimento em dividir os brasileiros com mais uma opinião. Sei quem vai gritar, sei quem vai balbuciar impropérios, sei quem vai querer negociar. Mas as grandes transformações sociais acontecem de baixo para cima, e são tanto mais pacíficas por força da incontinência do povo, somente sendo vitoriosas pela adesão das camadas do alto escalão quando a corda balança no patíbulo.

Minha advertência para o futuro: o Brasil não vai ficar de fora da guerra assimétrica, palavra que por sua natureza sugere o revide armado com as tecnologias de ponta na justificação política do ressentimento, da imobilidade estrutural, da escandalosa humilhação causada por diferenças materiais nitidamente reconhecidas pela corrupção que servirá de levedura das novas gerações. O partido Missão é tão jovem que algum dia poderá colher os frutos de uma pregação que hoje apenas começa a surgir nos ouvidos moucos de uma população entorpecida. Terá que se convencer que sua verdadeira missão será evoluir e perseverar.



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