Translate

quarta-feira, 16 de setembro de 2026

O Impasse eleitoral e a lógica do voto sentimental

No primeiro turno das eleições de 2022, a soma total dos votos dos candidatos da terceira via não passou dos 9%. Segundo as pesquisas eleitorais deste ano (12/9/2026), esta margem foi superada em uma proporção tão pequena que é incapaz de colocar em cheque as candidaturas Lula e Flávio.

Aqueles, como eu, que esperavam que a polarização iria ceder com candidatos alternativos, de repente se deram conta de que a sociedade brasileira ficou petrificada pela abulia.

E não só em reformas – tão necessárias – mas em rejeição aos escandalosos casos de corrupção. Para ser sincero, corrupção não perturba parte substantiva do eleitorado, porque provavelmente acha que todos os políticos são igualmente corruptos e, mais cedo mais tarde, vão estar na mesma posição daquele em evidência.

Nem o Mensalão, nem o Petrolão e, muito menos, o caso Master, foram capazes de mover os instintos do eleitor em busca de uma alternativa sucessória à altura das denúncias.

Lula e Flávio não são posições políticas, como nos iludem, porém INSTITUCIONALIDADES que estão na própria estrutura de poder no Brasil. São dois modelos de Estado: um bolivariano e pretensamente benevolente e, o outro, o legado do regime militar em que o democratismo oligárquico deixa de existir e as decisões são tomadas sem a correspondente transparência.

Lula é o resultado da extensa tradição socialista com 60 anos de maturação. Esta tradição foi decantada nas universidades, sindicatos, setores da igreja católica, ONGs, empresários de subsídios e funcionários públicos de alto e baixo escalão.

Flávio, seguindo o clã Bolsonaro, recolheu o que sobrou de setores sociais ameaçados, sejam no agro, no comércio e no temor das oligarquias perder tudo o que amealharam pela aventura suicida do bolivarianismo. Recebeu a intervenção providencial do olavismo na elaboração de uma filosofia extraída do anti-iluminismo, muito apropriada para o espírito retrógrado de nosso estatismo de castas, com uma espécie de evangelização das almas perdidas para o acolhimento das Igrejas, e pela construção de uma direita naftalina nos moldes do passado colonial perenialista. Conquistando apoio de lideranças evangélicas nacionais, o bolsonarismo criou uma musculatura política impermeável à alternância política. No mês de agosto, bem antes do registro das candidaturas, mas com candidatos já no panorama de pré-campanha, os influenciadores bolsonaristas afirmavam que Flávio era a única oposição ao PT. Como se fosse possível, na lógica de um pluripartidarismo entumescido, a existência de uma única oposição. O espírito de capelinha comprova uma noção tosca da democracia.

As mudanças tecnológicas no mercado de trabalho não favoreceram atitudes mentais que representassem melhor capacidade de reflexão, porém serviram de consolidação da polaridade. A ascensão de uma numerosa classe de estelionatários toleradas pela ideologia do coitadismo, criou no brasileiro pobre e empobrecido a aspiração ao enriquecimento individual com base na oportunidade, na sorte, na fraude, no desejo inconfesso de levar vantagem no que estiver à mão.

O debate entre as duas correntes guarda uma relação com a lógica medieval. Os argumentos se entrecruzam com a rejeição do valor da crítica como geradora de conhecimento e verdade, em busca da validação unicamente pela negativização do adversário. Cada polo vê o outro como demônio. São lados de uma mesma moeda que vale o preço do cretinismo.

A mente cativa não cede aos apelos da razão. No Brasil, os partidos tradicionais não conseguem sequer eleger ideias porque o eleitor não as tem e, no seu obscurantismo cultural, desconfia de quem sai fora das cativantes promessas repetidas em cada ciclo eleitoral. Apenas elegem pessoas, na esperança de se aproximar daqueles que tudo podem e são a tábua de salvação na dinâmica do patrimonialismo. O resultado é que no Brasil existe duas vertentes culturais das quais nenhum esforço intelectual é capaz de modificar: uma luta permanente entre as heranças macunaímicas e mazzaropianas que estão enraizadas em nossa cultura.

Quando se troca a impessoalidade (e suposta igualdade) da lei por critérios sociológicos de culpabilidade, cabendo ao despossuídos os mesmos favores das oligarquias, a vida política cotidiana se rebaixa ao relativismo em que delitos são aceitos desde que enquadrados num figurino social. É a negação da essência da democracia.


Renan Santos

De todos os candidatos divergentes, o mais enfático, combativo, com uma contundência muitas vezes exagerada, hiperativo e loquaz, é Renan Santos, um verdadeiro tribuno, espécie de inteligência que o Brasil experimentou em poucas ocasiões, como na figura de Rui Barbosa concorrendo duas vezes ao cargo presidencial.

Seu grupo, os Varões de Plutarco de guitarra e rock-and-roll tem, no entanto, mais de dez anos de experiências no combate à corrupção e desatinos da politicalha que consome as energias do país e que só sobrevive as custas de novas tecnologias que chegam para nos aliviar da parálise governamental, espécie de sedativo que nos permite adiar as dores da estagnação econômica num mundo em que não faltam exemplos de sucesso, mas que ninguém na estrutura de poder consegue mobilizar.

Renan tem respostas para tudo. Tem até um plano para acabar com o Centrão. Seu plano de governo é muitas vezes mais coerente do que a soma dos adversários. Porém, lhe falta o entendimento de que no Brasil o FEDERALISMO está morto.

Não se pode combater os desmandos, as inconstitucionalidades cotidianas, com meras substituições. A Sexta República foi sepultada pelas nossas más escolhas e a única solução que poderá nos tirar do pesadelo desta crise consiste em plantar a semente da CONFEDERAÇÃO, uma antiga aspiração que consiste na regionalização do Brasil sem perda da unidade. Não se trata pois de desespero nem tampouco de oportunismo. Os desequilíbrios regionais só poderão ser amenizados se toda a estrutura administrativa for regionalizada, excluindo os órgãos de natureza nacional, como as Forças Armadas, Polícia Federal, Itamaraty e uma representação política simbólica que fale em nome do Brasil, mas sem qualquer poder de interferência no resto das regiões. Mais que acabar com o Centrão, Renan precisa liderar uma campanha para acabar com Brasília. A saída da capital do Rio de Janeiro em 1960 já tinha a premissa de livrar a cidade do lodo moral que se propagava a partir das instituições federais. Voltamos ao mesmo ponto.

Se o Brasil vive o escarmento do sectarismo político, não sinto qualquer constrangimento em dividir os brasileiros com mais uma opinião. Sei quem vai gritar, sei quem vai balbuciar impropérios, sei quem vai querer negociar. Mas as grandes transformações sociais acontecem de baixo para cima, e são tanto mais pacíficas por força da incontinência do povo, somente sendo vitoriosas pela adesão das camadas do alto escalão quando a corda balança no patíbulo.

Minha advertência para o futuro: o Brasil não vai ficar de fora da guerra assimétrica, palavra que por sua natureza sugere o revide armado com as tecnologias de ponta na justificação política do ressentimento, da imobilidade estrutural, da escandalosa humilhação causada por diferenças materiais nitidamente reconhecidas pela corrupção que servirá de levedura das novas gerações. O partido Missão é tão jovem que algum dia poderá colher os frutos de uma pregação que hoje apenas começa a surgir nos ouvidos moucos de uma população entorpecida. Terá que se convencer que sua verdadeira missão será evoluir e perseverar.



sábado, 25 de julho de 2026

A Nova Corrida Espacial, mapeada

Sun, Jul 19, 2026

Stephen McBride and Dan Steinhar (From The Rational Optimist Society)

Logo ao sul do Aeroporto Internacional de Los Angeles, em um antigo galpão da Beyond Meat, visitamos uma empresa que fabrica medicamentos no espaço.

Sua fábrica de medicamentos cabe em uma cápsula em forma de cone, não maior do que uma lata de lixo. Em seu interior, cristais de medicamentos crescem com uma perfeição inalcançável na Terra.

Pudemos ver e tocar a segunda cápsula da história a concluir uma missão. Duas semanas antes, ela estava a cerca de 480 quilômetros de distância, em órbita baixa da Terra. Seu escudo térmico estava chamuscado e escurecido por ter suportado a reentrada na atmosfera terrestre a uma velocidade 25 vezes superior à do som.

Essa empresa é a Varda Space. O chão de fábrica dela conta a história do florescimento de uma nova era espacial. De um lado, salas limpas para a indústria farmacêutica; do outro, a montagem de espaçonaves; e, no meio, o centro de controle da missão.

A cerca de cinco quilômetros dali, na cidade vizinha de Hawthorne, fica a empresa de foguetes responsável por levar as cápsulas da Varda ao espaço. Você provavelmente já ouviu falar dela. Durante 60 anos, a parte difícil da exploração espacial era justamente chegar lá. Agora que a SpaceX resolveu esse problema, inovadores correm para compreender as possibilidades extraordinárias que se abriram para nós.

Neste Mergulho Profundo, examinamos as empresas que estão construindo negócios no espaço.

As iniciativas variam do “comum” — fotografias diárias de cada pedaço de terra no Plabeta, ao extraordinário — o lançamento de data centers no espaço, o que, na nossa opinião, é inevitável. Ao quase inacreditável — o lançamento de espelhos gigantes em órbita para refletir a luz solar sob demanda para qualquer lugar da Terra.

Há tanta coisa acontecendo no espaço que tivemos que ser implacáveis na nossa seleção. Conhecemos mais de 100 empresas espaciais, mas reduzimos a lista àquelas que realmente importam. Começaremos pela plataforma de lançamento e seguiremos até as estrelas.


PARTE I: NA PLATAFORMA DE LANÇAMENTO

Tudo no espaço começa aqui, com o desafio crucial de deixar o planeta a um custo razoável.

A SpaceX resolveu isso de forma tão completa que a única pergunta que resta é quem ficará em segundo lugar.

SpaceX

Abriu as portas do espaço e agora é o "pedágio" de toda a economia espacial.

A importância da SpaceX pode ser resumida em quatro palavras: lançamentos baratos mudaram tudo.

Durante 60 anos, descartávamos um foguete após um único voo. Imagine sucatear um Boeing 747 depois de uma viagem de Nova York a Londres e construir outro para o voo de volta. Era assim que operávamos no espaço. É por isso que colocar um quilograma de qualquer coisa em órbita custava uma fortuna.

Então, a SpaceX aprendeu a pousar seus foguetes e a reutilizá-los. O resultado é o gráfico mais importante do setor espacial:

O custo para colocar um quilograma em órbita caiu de cerca de US$ 54.500 no Ônibus Espacial para aproximadamente US$ 2.700 no Falcon 9, que é reutilizável. O gigantesco novo Starship da SpaceX tem como objetivo reduzir esse valor para menos de US$ 100.

Reduzir em 95% o custo para chegar à órbita torna viáveis muitas coisas que antes não faziam sentido. Todas as empresas abordadas nesta análise aprofundada derivam, direta ou indiretamente, desse único gráfico.

A reutilização de foguetes proporcionou as maiores reduções de custos, mas a força motriz por trás disso foi a aplicação implacável, pela SpaceX, do "Índice de Idiotice" de Elon Musk.

O "Índice de Idiotice" (Idiot Index) compara o custo total de uma peça acabada ao custo das matérias-primas utilizadas em sua fabricação. Se essa proporção for alta, provavelmente há margem para economizar dinheiro.

O Índice de Idiotice dos foguetes tradicionais era astronômico. As matérias-primas representavam apenas cerca de 2% do preço final; os outros 98% correspondiam à mão de obra e à margem de lucro dos fornecedores. A SpaceX focou justamente nesses 98%.

Um exemplo: no início, a SpaceX precisava de um atuador mecânico para o Falcon 1. Os fornecedores diziam: "Claro, vai custar 120 mil dólares". Elon riu do orçamento e encarregou um engenheiro de projetar a peça. O componente desenvolvido custou 3.900 dólares e levou o Falcon 1 ao espaço.

No ano passado, a SpaceX lançou 165 foguetes, respondendo por mais de 80% da massa que a humanidade enviou ao espaço. Praticamente todas as outras empresas mencionadas nesta análise aprofundada são clientes da SpaceX, de uma forma ou de outra.

Nada mal para uma empresa que quase faliu. Em setembro de 2008, os três primeiros foguetes Falcon 1 da SpaceX haviam fracassado. A empresa tinha recursos suficientes para apenas mais um lançamento.

O quarto voo alcançou a órbita. Toda a economia espacial moderna depende de aquele único voo não ter explodido. Foi por um triz que tudo isso não deixou de existir.

O documento de abertura de capital (IPO) da SpaceX nos deu a primeira visão real das finanças da empresa. Os foguetes mal geram lucro. A Starlink, seu serviço de internet via satélite, é altamente lucrativa, mas nem de longe o suficiente para justificar a avaliação astronômica da SpaceX, que supera os US$ 2 trilhões.

Isso se baseia em duas apostas: seu foguete do tamanho de um arranha-céu, o Starship, e o futuro da IA ​​operando no espaço. Mais detalhes abaixo.


Rocket Lab

Concorrente mais confiável para o business de lançamento da SpaceX

Rocket Lab constrói foguetes pequenos e médios. O fundador Peter Beck é um engenheiro autodidata da Nova Zelândia que aprendeu a construir foguetes nas horas vagas enquanto trabalhava em uma fábrica de eletrodomésticos.

Ele não apenas abriu uma empresa de foguetes em um país sem indústria espacial. Rocket Lab tornou-se a primeira empresa privada a alcançar a órbita do Hemisfério Sul!

Hoje, o Electron do Rocket Lab é o segundo foguete mais ativo nos EUA. Neutron – seu foguete maior e reutilizável – está em desenvolvimento. O futuro do Rocket Lab depende de o Neutron voar... e, se o fizer, da rapidez com que o Rocket Lab pode aumentar sua cadência de lançamento.


Blue Origin

Concorrente da SpaceX propensa a falhas e com seu próprio foguete gigante reutilizável

Jeff Bezos fundou a Blue Origin dois anos antes da SpaceX. O New Glenn é o seu foguete gigante reutilizável, que a empresa pousou pela primeira vez no final de 2025.

No entanto, a Blue Origin enfrentou grandes contratempos recentemente. Em um voo, o satélite de um cliente acabou ficando preso na órbita errada. Depois, um New Glenn explodiu durante um teste de queima estática, destruindo a única plataforma de lançamento da Blue Origin.

A Blue Origin dispõe de mais recursos financeiros e, possivelmente, de hardware superior ao de qualquer outra empresa, exceto a SpaceX. Ainda assim, após 25 anos, ela continua sem conseguir realizar lançamentos de forma confiável.


Relativity Space

Imprime foguetes em 3D

A ideia da Relativity é "imprimir" peças de foguete em metal, em vez de soldar milhares de componentes.

A empresa enfrentou dificuldades financeiras e quase faliu no ano passado, até que o ex-CEO do Google, Eric Schmidt, a adquiriu e assumiu o cargo de CEO. Ela já fechou contratos de lançamento no valor de US$ 3 bilhões para seu grande foguete Terran R. Além disso, apenas neste mês, a NASA selecionou a Relativity para construir a espaçonave que transportará seus instrumentos científicos em uma missão para orbitar Marte, prevista para 2028.

Embora isso represente um importante voto de confiança, a Relativity ainda não alcançou a órbita. Os próximos dois anos serão decisivos para o futuro da empresa.


Onde está a Europa?

Eu (Stephen) sou irlandês. Quando critico a Europa, saiba que é por boas intenções.

Na década de 1990, os foguetes Ariane europeus detinham mais da metade do mercado mundial de lançamentos comerciais. No ano passado, o continente que inventou os lançamentos comerciais lançou apenas sete foguetes. A SpaceX igualou esse número nas duas primeiras semanas de janeiro.

Por que essa estagnação? Enquanto a Europa passava 30 anos construindo foguetes por comitês, os inovadores da Califórnia reescreveram as regras dos voos espaciais, deixando todos os outros para trás.

Observe este gráfico. Note que ele contabiliza satélites, não foguetes, creditando cada um a quem o encomendou, e não a qual foguete o transportou. Essa é a maneira mais lisonjeira de avaliar a Europa — e mesmo assim, ela mal aparece.

Por cerca de nove meses, a Europa ficou totalmente impossibilitada de alcançar a órbita por conta própria. Isso se deveu, em parte, ao fato de a Rússia ter proibido a Europa de utilizar seus foguetes após a invasão da Ucrânia. Outro fator foi a aposentadoria do foguete Ariane 5 antes que o Ariane 6 estivesse pronto.

Sem um foguete próprio, a Europa teve de lançar seus satélites Galileo utilizando foguetes da empresa americana SpaceX. Esses satélites operam o sistema de navegação desenvolvido pela Europa justamente para que ela não precisasse... depender do GPS americano.

Embora a Europa tenha perdido a corrida dos lançamentos, ela mantém sua competitividade em outras áreas da cadeia de valor espacial, como você verá a seguir.


PARTE II: INFRAESTRUTURA

Esta é a parte da economia espacial que já beneficia a humanidade. Quando você aproxima seu cartão para pagar, chama um transporte por aplicativo ou rastreia uma encomenda, um satélite está ajudando a viabilizar essa ação.

Starlink

Subsidiária da SpaceX que fornece internet de alta velocidade em qualquer lugar da Terra

A Starlink possui mais de 10.000 satélites em órbita ao redor do planeta. Isso representa cerca de dois terços de todos os satélites em órbita. Atendendo a mais de 10 milhões de assinantes, a Starlink está levando conectividade a locais que as torres de celular jamais alcançaram. O negócio gera US$ 11 bilhões em receita, o que corresponde a 61% do faturamento da SpaceX. É o único segmento lucrativo da empresa.

No ano passado, a SpaceX pagou US$ 17 bilhões para adquirir o espectro de radiofrequência da EchoStar. Isso permitirá oferecer banda larga real diretamente a um telefone comum, sem a necessidade de uma antena parabólica especial.

A Starlink não é a única empresa tentando transmitir internet do espaço, mas sairá vencedora. A SpaceX é a única que possui seus próprios foguetes. Todas as outras precisam comprar serviços de lançamento — muitas vezes da própria SpaceX —, portanto, nunca conseguirão ser mais rápidas ou mais baratas. Até mesmo o governo dos EUA está utilizando o Starshield, a versão militar da Starlink, em vez de construir sua própria rede de satélites.


Astranis

Transmitindo internet a 36.000 km de distância

Cada satélite da Starlink orbita o planeta em altíssima velocidade — cerca de 27.000 km/h (17.000 milhas por hora) — na órbita terrestre baixa (LEO), a aproximadamente 550 km acima de nós. Nessa distância reduzida, é possível fornecer um sinal forte e com latência quase nula. No entanto, são necessários milhares deles para cobrir toda a Terra.

A Astranis transmite internet de uma distância muito maior, posicionando seus satélites em órbita geoestacionária (GEO), a cerca de 36.000 km da Terra. Dessa posição, um único satélite consegue cobrir um país inteiro. A contrapartida é que o sinal percorre uma distância 65 vezes maior, o que aumenta a latência.

A Astranis fabrica satélites pequenos (350 kg) e de custo relativamente baixo. Seus clientes são países e empresas que passam a contar com seu próprio satélite dedicado; a empresa já fechou acordos com Taiwan e Omã.

A Astranis encontrou um nicho na internet via satélite que a Starlink ainda não domina e está ganhando terreno.


SES

A infraestrutura por trás da TV global

Sediada no pequeno Luxemburgo, a SES é uma das duas ou três maiores operadoras de satélites do planeta. Ela detém uma fatia enorme do mercado mundial de televisão, Wi-Fi a bordo de aeronaves e comunicações militares.

Em 2025, a empresa incorporou sua antiga rival Intelsat, passando a contar com uma frota de cerca de 120 satélites e uma receita anual de aproximadamente € 3,7 bilhões. Ela também lidera o IRIS2, a resposta europeia de € 10 bilhões à Starlink. A SES demonstra que nem todo vencedor no setor espacial precisa ser uma startup de tecnologia de ponta.


ICEYE

Opera a maior frota de satélites de radar do mundo

A ICEYE e as duas empresas a seguir competem no setor de observação da Terra. Esta é a área mais saturada e competitiva do setor espacial e, segundo especialistas da área, a mais superestimada. Estamos incluindo apenas as três que, em nossa avaliação, possuem um nicho sustentável e protegido.

A ICEYE, uma empresa finlandesa, é a melhor empresa de imagens de radar da Terra no planeta. A maioria dos satélites observa a Terra com câmeras, o que significa que nuvens e a escuridão da noite os deixam "cegos". A ICEYE, por sua vez, utiliza radar: ela emite ondas de rádio em direção ao solo e capta o eco resultante, o que lhe permite enxergar através de nuvens e na escuridão total.

A ICEYE produz um novo satélite aproximadamente uma vez por semana e obteve uma receita superior a 250 milhões de euros em 2025.


Planet Labs

Fotografa toda a Terra diariamente

A Planet Labs opera uma constelação de 200 satélites do tamanho de caixas de sapato que fotografam cada pedaço de terra do planeta todos os dias. A empresa gera um registro diário de "antes e depois" de todo o globo.

Agora, a empresa está mudando seu foco de apenas tirar fotos para a venda de dados. Possuir um registro de "timelapse" diário da Terra que abrange 10 anos é algo extremamente valioso e que nenhum concorrente consegue replicar.

Estamos apenas começando a descobrir as possibilidades de uso desses dados. Por exemplo, grandes tanques de petróleo possuem uma tampa que flutua diretamente sobre o óleo, descendo à medida que o tanque é esvaziado. Do espaço, é possível medir com precisão quase exata o nível de preenchimento do tanque. Ao fazer isso com todos os principais tanques de petróleo do mundo, torna-se possível monitorar a oferta global de petróleo em tempo quase real.

É fácil imaginar a utilidade disso para as forças armadas, sem falar nos operadores do mercado de commodities.


Muon Space

Detectando incêndios florestais a partir da órbita

A Muon fabrica e opera satélites personalizados. Sua constelação FireSat detecta incêndios florestais tão pequenos quanto uma sala de aula, utilizando sensores de imagem térmica e inteligência artificial. O sistema compara cada área do terreno com milhares de imagens anteriores para identificar qualquer sinal suspeito. O primeiro trio de satélites FireSat em operação tem lançamento previsto para os próximos meses.

A Muon oferece uma resposta imediata e simples à pergunta: "Por que o cidadão comum deveria se importar com o espaço?" O FireSat salvará vidas e casas na Terra.


Xona Space Systems

Uma alternativa ao GPS difícil de interferir

No mês passado, eu estava no centro de Dubai tentando chamar um Uber. O motorista estava a poucos minutos de distância quando, de repente, o ícone dele saltou para o outro lado da cidade e o meu indicava que eu estava flutuando no oceano. Nossos sinais de GPS estavam sofrendo ataques de *spoofing* (falsificação de sinal).

Com drones e mísseis cruzando os céus do Golfo, forças militares inundam as frequências com ruído de rádio para cegar esses dispositivos. Nossos celulares são apenas danos colaterais. A interferência (*jamming*) atualmente perturba o sinal de GPS em bem mais de mil voos por dia.

A Xona está construindo sua própria rede de navegação. Sua constelação de mais de 250 satélites (chamada Pulsar) opera em baixa altitude — cerca de 330 milhas (aprox. 530 km) acima da Terra —, em comparação com as 12.500 milhas (aprox. 20.000 km) dos antigos satélites de GPS. Isso torna o sinal cerca de 100 vezes mais forte, além de ser criptografado. O resultado é um posicionamento com precisão de centímetros, difícil de bloquear ou falsificar.

A Força Espacial dos EUA recentemente abandonou seu próprio plano bilionário de criar um sistema de backup para o GPS e passou a considerar a aquisição de soluções comerciais. Carros autônomos, drones, navios e as forças armadas precisam de sistemas de posicionamento muito mais robustos e precisos do que um sistema de 50 anos pode oferecer. A Xona lidera essa corrida.


Apex Space

Produção em massa de plataformas de satélite

O contêiner de carga é apenas uma humilde caixa de aço. Mas ele transformou o comércio global de uma atividade artesanal e lenta em uma indústria pujante.

O setor espacial está vivendo exatamente esse momento agora. Sua versão da caixa de aço é a plataforma de satélite (ou *bus*).

Todo satélite é composto por duas partes. Há a carga útil (*payload*): o componente que executa a função principal, como uma câmera ou um radar. E há a plataforma, que pode ser entendida como o chassi e o motor do satélite. Ela contém todo o restante necessário para o funcionamento do equipamento: a estrutura, painéis solares e baterias, propulsores para manobras, um computador como "cérebro" e rádios para comunicação com a Terra.

Durante décadas, cada plataforma de satélite era construída manualmente do zero, o que as tornava extremamente caras. Agora, uma onda de startups está padronizando esse componente. A ideia é fabricar uma estrutura comum, em larga escala, na qual qualquer cliente possa acoplar sua carga útil.

Essa é uma das camadas mais valiosas do setor espacial. Quem fabrica o "contêiner de carga" do espaço ocupa uma posição central em toda a indústria.

A Apex está na vanguarda desse movimento. Encontramos o fundador da Apex, Ian Cinnamon, na ampla fábrica da empresa em Los Angeles, com cerca de 4.600 metros quadrados (50.000 pés quadrados). Quando Ian decidiu construir seu primeiro satélite, os especialistas afirmaram que o processo levaria "três anos e custaria US$ 50 milhões". A Apex realizou a tarefa em 12 meses, por menos de US$ 10 milhões.

A Apex permite que uma empresa encomende uma plataforma de satélite da mesma forma que se chama um Uber. Basta acessar o site, escolher o tamanho e visualizar imediatamente o preço e a data de entrega.

O menor satélite da Apex, o Aries, é vendido por US$ 3,5 milhões — um valor de 3 a 10 vezes menor do que o cobrado pelas grandes empresas tradicionais de defesa por plataformas feitas sob medida. Sua lista de clientes reúne os principais nomes da "Nova Era Espacial" (*New Space*).

A Apex solucionou o problema menos glamoroso do setor espacial. Apostamos que a empresa valerá US$ 10 bilhões em poucos anos. Talvez a Apex seja a empresa em que mais apostamos (com maior otimismo) em todo este guia.


K2 Space

Construindo satélites grandes e de alta potência

Durante duas décadas, a tendência no setor de satélites foi a miniaturização. Quando o lançamento custa uma fortuna, cada quilograma é precioso. A K2 aposta que o barateamento dos lançamentos revitalizará os satélites de grande porte.

Sua premissa fundamental é que a potência é o verdadeiro fator limitante para a capacidade de um satélite, e satélites maiores podem comportar mais potência. Um satélite pequeno típico opera com uma quantidade de eletricidade equivalente à de um secador de cabelo. A plataforma "Mega" da K2 oferece 20 vezes essa capacidade.

A K2 firmou contratos importantes com a Força Espacial dos EUA. Seu principal satélite, o Gravitas, tornou-se o maior de sua categoria a ser colocado em órbita ao pegar carona em um foguete Falcon 9 da SpaceX, em março passado.

Agora chega o verdadeiro teste: posicionar o satélite em órbita, gerar energia, operar as cargas úteis e acionar seus propulsores. Se o Gravitas superar esses desafios, a K2 ascenderá ao grupo das empresas espaciais mais importantes.


EnduroSat

A fábrica de satélites da Europa

Sediada na Bulgária, a EnduroSat fabrica uma linha de estruturas de satélite padronizadas, variando desde modelos do tamanho de uma caixa de sapatos até aqueles na categoria de meia tonelada. A empresa já entregou mais de 120 dessas plataformas a clientes como a IBM. Seu objetivo é produzir dois satélites por dia em sua fábrica em Sófia.

A Europa está prestes a investir pesadamente em satélites para reduzir sua dependência dos EUA. A EnduroSat provavelmente se beneficiará desse enorme fluxo de recursos governamentais e poderá ser uma das maiores vencedoras em todo o continente europeu.


Northwood Space

Estações terrestres que se comunicam com satélites

Um satélite com o qual não se consegue estabelecer comunicação não passa de uma rocha caríssima. Todo satélite precisa transmitir seus dados para a Terra e receber comandos de volta. As antenas e os lasers que conectam os satélites à Terra representam, atualmente, gargalos importantes.

Imagine uma antena gigantesca que precisa girar fisicamente para rastrear um satélite que passa em alta velocidade sobre ela. Ela custa milhões, leva anos para ser construída e só consegue se comunicar com um satélite de cada vez. Esse é o cenário atual e pouco eficiente das antenas parabólicas terrestres.

A solução da Northwood é o "Portal", uma antena sem partes móveis capaz de se comunicar com vários satélites simultaneamente. Os Portals podem ser produzidos em massa, descarregados de um caminhão e colocados em operação imediatamente. A empresa já conquistou um contrato de US$ 50 milhões com a Força Espacial dos EUA, visando ajudar a modernizar a rede militar de controle de satélites.

A Northwood já é uma referência no setor de infraestrutura espacial.


Observable Space

Lasers que se conectam a satélites

Observable está apostando que o futuro das comunicações espaciais será baseado na luz. Seu principal negócio é a fabricação de telescópios e detecção óptica terrestre para rastrear objetos em órbita. Recentemente, começou a expandir-se para a comunicação a laser, transferindo dados de e para satélites em feixes de luz em vez de rádio.

Isso permite mais largura de banda e um link que é quase impossível de bloquear ou escutar. Pense nisso como um cabo de fibra óptica, exceto que o “cabo” é um laser.

Observable já administra uma rede global com mais de 40 sites para rastrear objetos em órbita. Ajudou a transportar o link laser para a missão Artemis II Moon da NASA. Ainda é cedo para esta empresa, mas se a luz for o futuro das comunicações espaciais, o Observable poderá estar em todos os satélites.


PARTE III: A REVOLUÇÃO INDUSTRIAL FORA DA TERRA

Agora, vamos conhecer as empresas que estão realizando no espaço atividades antes consideradas impossíveis.

Varda

Produzindo medicamentos em órbita e trazendo-os de volta à Terra

Na Terra, a gravidade causa imperfeições durante o crescimento de cristais de medicamentos. No espaço, a gravidade é praticamente inexistente. Essa "microgravidade" permite a formação de cristais mais puros e estáveis, possibilitando à Varda produzir medicamentos mais estáveis e eficazes.

A ideia de produzir medicamentos no espaço pode parecer questionável até que se façam as contas. Durante nossa visita, o CTO da Varda, Nick Cialdella, explicou que todo o mRNA de todas as doses de vacina contra a COVID já administradas caberia dentro de alguns poucos galões de leite. Quando um produto possui tamanho valor por grama, enviar uma fábrica de medicamentos de cerca de 90 kg (200 libras) para a órbita torna-se financeiramente viável.

Em maio, a United Therapeutics, uma gigante farmacêutica avaliada em US$ 25 bilhões, firmou um acordo com a Varda para produzir medicamentos no espaço.

A SpaceX tornou o acesso ao espaço algo rotineiro e barato. A Varda está fazendo o mesmo em relação ao retorno à Terra. Sobreviver a uma descida pela atmosfera a Mach 25 é um dos maiores desafios de toda a engenharia.

A Varda resolveu esse problema. A empresa obteve sucesso total — seis em seis tentativas — no lançamento de cápsulas e em seu retorno seguro à Terra. É apenas a terceira empresa na história (depois da Boeing e da SpaceX) a trazer uma espaçonave de volta da órbita.

A maioria das startups do setor espacial sobrevive de subsídios governamentais. A Varda conquistou um cliente real de US$ 25 bilhões e está financiando suas operações por meio de contratos de testes hipersônicos com o Pentágono. Essa é a prova mais clara até agora de que "fabricar coisas no espaço" pode ser um negócio viável.


Space Forge

Cultivando semicondutores no espaço

Originária da Grã-Bretanha, a Space Forge pretende utilizar o mesmo truque da microgravidade. Mas, em vez de medicamentos, ela cultivará cristais semicondutores. Esses cristais deverão resultar muito mais puros do que qualquer coisa que se possa produzir em solo terrestre. Isso significa chips melhores e mais eficientes.

A ForgeStar-1 alcançou a órbita em meados de 2025 e acionou seu forno com sucesso. No entanto, diferentemente da Varda, a Space Forge ainda não trouxe uma fábrica de volta. Sua próxima missão, a ForgeStar-2, precisará sobreviver à reentrada.

Se conseguir realizar o pouso com sucesso, a Space Forge se tornará uma das startups mais importantes da Europa.


Impulse Space

Levando satélites aonde precisam chegar

Um foguete é como um trem que só para em um lugar. O Falcon 9, da SpaceX, deixa cargas na órbita terrestre baixa (LEO, a 550 km de altitude) ou em uma trajetória rumo à órbita geoestacionária (GEO, a 36.000 km). No entanto, muitos satélites precisam de ajuda para percorrer esse trecho final até a GEO.

Hoje, existem duas opções ruins. Acionar um propulsor elétrico de baixa potência é barato, mas leva meses para alcançar órbitas mais altas. Acoplar um estágio extra de foguete é rápido, porém caro.

A solução é um "rebocador espacial": um veículo dedicado que pega o satélite no ponto de entrega inicial e o transporta pelo restante do caminho. Vários fundadores de empresas aeroespaciais que conhecemos em Los Angeles nos disseram: "A capacidade de manobra é a tendência mais subestimada no setor espacial".

O fundador da Impulse, Tom Mueller, é indiscutivelmente o melhor engenheiro de propulsão de foguetes em atividade. Ele foi o primeiro funcionário da SpaceX e projetou o motor Merlin, que ainda impulsiona todos os foguetes Falcon 9.

O "Mira", da Impulse, é um pequeno rebocador que realiza missões comerciais desde 2023. Seu "irmão mais velho", o "Helios", ainda está em desenvolvimento e promete transportar um satélite da LEO até a GEO em apenas 8 horas — uma viagem que atualmente leva meses. A Impulse também afirma que o Helios pode levar cerca de 3 toneladas de carga até a Lua, uma capacidade várias vezes superior à dos atuais módulos de pouso lunar.

A Impulse é a líder incontestável na corrida dos rebocadores espaciais de longo alcance, sem concorrentes à altura.


D-Orbit

O rebocador espacial da Europa

A italiana D-Orbit fabrica rebocadores que transportam satélites. Ao contrário da Impulse, a empresa concentra-se no equivalente espacial da "entrega de última milha". Seu veículo ION conduz satélites até o destino desejado, geralmente em um raio de 150 km do ponto de lançamento inicial.

A D-Orbit possui o histórico operacional mais longo nesta categoria, com mais de uma dúzia de missões bem-sucedidas desde 2020.

Em um setor onde quase todas as empresas estão consumindo caixa, a D-Orbit realiza missões e gera receita com elas. Um destaque na Europa.


Inversion Space

Armazena carga em órbita e a lança em qualquer lugar da Terra em até uma hora.

Para que o espaço se torne uma economia real, a reentrada precisa se tornar tão barata e rotineira quanto o lançamento. Com tanto material sendo enviado para cima, o retorno à Terra promete se tornar um mercado gigantesco.

A Inversion está construindo armazéns no espaço. A ideia é lançar sua cápsula (chamada Arc) embalada com carga e deixá-la estacionada em órbita, onde pode aguardar por meses ou até anos. Então, ao toque de um botão, a Arc aciona seus propulsores e direciona sua descida para um ponto preciso em solo.

Imagine lançar equipamentos para tropas do outro lado do mundo em menos de uma hora. Eis um caso de uso militar extremamente poderoso.

Esse potencial ainda levará anos para se concretizar, mas a Inversion encontrou uma maneira inteligente de gerar receita no curto prazo. Uma cápsula retornando à Terra a velocidades superiores a Mach 20 comporta-se de forma muito semelhante a uma arma hipersônica — algo que o Pentágono pagaria caro para observar.

Por enquanto, a Inversion atua no setor de testes hipersônicos, com planos de lançar futuramente um serviço de entrega de grande escala. Vamos nos encontrar com o CEO da Inversion, Justin Fiaschetti, em uma próxima viagem para saber mais detalhes.


Data centers no espaço

Não é nem de longe tão loucura quanto parece

Em novembro passado, um foguete da SpaceX decolou da Califórnia levando um satélite do tamanho de uma geladeira doméstica. Fixada em seu interior estava uma única Nvidia H100 — a mesma linha de GPU da Nvidia que impulsiona os modelos de IA de ponta atuais.

Desenvolvido por uma startup de dois anos chamada Starcloud, o satélite alcançou a órbita. Enquanto orbitava a Terra a cerca de 27.000 km/h (17.000 milhas por hora), o chip a bordo treinou um modelo de IA utilizando a obra completa de Shakespeare.

Desde então, o Google anunciou que seus próprios chips de IA serão enviados para a órbita até 2027. A Nvidia também está criando uma versão de seu chip mais recente para o espaço. E a avaliação de mercado astronômica da SpaceX depende do sucesso dos data centers espaciais.

Quando as maiores empresas do mundo começam a correr em direção ao mesmo objetivo, é hora de prestar atenção.

A primeira coisa a saber sobre data centers no espaço é que eles não se parecerão com os data centers na Terra. Não haverá galpões gigantes flutuando lá em cima. Em vez disso, os data centers orbitais serão compactos e minimalistas. Imagine um satélite Starlink equipado com uma GPU, um painel solar e um radiador, movendo-se em sincronia com outros satélites para formar uma constelação.

Data centers orbitais enfrentam problemas reais, como resfriamento, radiação e manutenção. No entanto, são desafios de engenharia com soluções já conhecidas.


Duas razões pelas quais os data centers no espaço terão sucesso:

#1: Estamos ficando sem energia. As concessionárias de energia dos EUA estão orientando empresas de IA a voltarem apenas em 2028 caso queiram se conectar à rede elétrica. Alguns data centers permanecem prontos, porém inativos, por anos à espera dessa conexão. Já na órbita, satélites de data center podem captar energia gratuita do sol por meio de painéis solares.

#2: O efeito NIMBY ("não no meu quintal"). Sete em cada dez americanos não querem um data center "no seu quintal". A IA difere de qualquer onda tecnológica anterior por exigir uma localização física — e essa localidade tem voz ativa. No espaço, não há conselho municipal nem vizinhos para registrar reclamações. É mais fácil posicionar um data center *sobre* Nova York do que *dentro* dela.

Os data centers orbitais vão se tornar realidade, e a SpaceX sairá vencedora. Um data center orbital é, essencialmente, massa que precisa ser lançada ao espaço. Ninguém mais consegue lançar foguetes a um custo tão baixo quanto a SpaceX.

Mas a verdadeira vantagem competitiva ("fosso econômico") da SpaceX é deter toda a cadeia produtiva. Se você compra o foguete de uma empresa, o satélite de outra e os chips de uma terceira, as margens de lucro de cada uma corroem seus custos. Apenas a SpaceX e suas empresas afiliadas controlam toda a cadeia.

· O foguete: Starship.
· O satélite: Starlink.
· A energia: células solares da Tesla e da SpaceX.
· Os chips: o plano "Terafab", de Musk, para fabricar os chips.
· O cérebro: o Grok, da xAI, agora pertence à SpaceX.

Existe um fator subestimado que permitiu à SpaceX reduzir os custos de lançamento: seus foguetes Falcon 9 transportavam satélites Starlink. Os lançamentos não eram apenas testes iterativos; tinham um propósito comercial e, no fim das contas, geravam lucro para a empresa.

Centros de dados em órbita são a carga que permitirá à SpaceX realizar voos da Starship com frequência suficiente para tornar a operação barata.

A SpaceX foi avaliada em US$ 2 trilhões. Os negócios de Starlink e de lançamentos valem US$ 1 trilhão, sendo bastante otimista na estimativa. O outro trilhão é uma aposta na xAI e nos centros de dados em órbita.

A corrida espacial dos centros de dados começa agora. Mas ela não atingirá uma escala significativa antes do início da década de 2030.


PARTE IV: A FRONTEIRA

Chegamos agora à verdadeira fronteira: a Lua, os asteroides e a corrida para substituir a estação espacial. Esta é uma área que desperta muita imaginação e romantismo; por isso, é importante distinguir os operadores reais dos meros contadores de histórias.


Intuitive Machines

Transporta carga para a Lua a serviço da NASA

A Intuitive Machines tentou pousar na Lua duas vezes. Em ambas as ocasiões, a sonda chegou à superfície, mas acabou tombando. Para uma empresa de capital aberto, essa não é uma boa imagem.

No entanto, se a Intuitive Machines conseguir realizar um pouso bem-sucedido, o negócio pode se tornar gigantesco. A empresa foi a única vencedora do contrato da NASA para retransmissão de dados lunares, que visa construir uma rede de torres de comunicação ao redor da Lua. A próxima missão, prevista para o final deste ano, será decisiva para o futuro da companhia.


Firefly Aerospace

Realizou o primeiro pouso comercial bem-sucedido na Lua

Em março de 2025, o módulo de pouso "Blue Ghost", da Firefly, pousou na Lua perfeitamente na vertical logo na primeira tentativa. A NASA pagou cerca de US$ 100 milhões pela missão.

Executar com perfeição a manobra mais difícil do espaço logo na primeira tentativa confere um tipo de credibilidade que o dinheiro não pode comprar. A Firefly também fabrica foguetes, mas seu pequeno lançador "Alpha" apresenta um histórico irregular.

Sinais iniciais promissores, com um longo caminho pela frente para se tornar um negócio sustentável.


Interlune

Mineração de Hélio-3 na Lua

A Interlune pretende minerar Hélio-3, um gás raro avaliado em cerca de US$ 20 milhões por quilograma. Praticamente não há reservas desse gás na Terra, mas estima-se que exista cerca de um milhão de toneladas incorporadas ao solo lunar.

As aplicações do Hélio-3 a curto prazo incluem o abastecimento de reatores de fusão e o resfriamento de computadores quânticos, que precisam ser mantidos a temperaturas apenas ligeiramente acima do zero absoluto.

A Interlune já firmou contratos com o Departamento de Energia dos EUA e com a Bluefors, líder na fabricação de sistemas de refrigeração para computação quântica.

A Interlune é uma aposta de altíssimo risco e ambição — uma verdadeira "missão lunar". Ou a empresa consegue viabilizar a mineração na Lua e passa a valer bilhões, ou seu valor cai a zero.


Vast Space

Construindo a primeira estação espacial comercial

Há 25 anos, a ISS serve como o posto avançado da humanidade no espaço. No entanto, ela está envelhecida e, em 2031, será deliberadamente conduzida para baixo para queimar na atmosfera. A SpaceX está construindo o veículo que a levará a esse fim incandescente.

Em vez de construir uma substituta, a NASA pretende alugar espaço em estações de propriedade privada. Algumas empresas estão em uma corrida para construir uma ISS privada.

Em nossa opinião, a Vast é a líder nessa disputa.

Fundada e financiada majoritariamente com recursos próprios pelo bilionário do setor de criptomoedas Jed McCaleb, a primeira estação da Vast, a Haven-1, já foi aprovada em testes estruturais e de pressão completos, restando apenas algumas etapas adicionais de testes. O lançamento está previsto para 2027.


Reflect Orbital

Colocando espelhos em órbita para direcionar a luz solar para a Terra

A apenas um quarteirão da sede original da SpaceX, a Reflect Orbital está desenvolvendo espelhos espaciais gigantes para fornecer luz solar sob demanda.

A Reflect pretende posicionar uma frota de espelhos gigantes em órbita para captar a luz solar e refleti-la de volta para a Terra. O sistema pode iluminar uma usina solar após o pôr do sol, permitindo que ela continue gerando energia, ou iluminar uma área de busca e resgate na escuridão.

Os espelhos são feitos de um filme brilhante chamado Mylar, utilizado pela NASA para revestir espaçonaves. O material é tão fino que uma amostra do tamanho da palma da mão flutua no ar como uma sacola plástica. Um espelho pronto é maior do que uma quadra de tênis, mas pesa cerca de 100 kg e pode ser dobrado — como um origami — para caber em uma caixa do tamanho de um micro-ondas.

Como você pode imaginar, direcionar um espelho que orbita a Terra a cerca de 27.000 km/h (17.000 milhas por hora) para projetar um feixe de luz útil em um local específico é uma tarefa extremamente complexa. No entanto, a tecnologia nos conquistou, e o fundador, Ben Nowack, é uma das pessoas mais brilhantes que já conheci.


AstroForge

Mineração de metais do grupo da platina em asteroides

O CEO da AstroForge, Matt Gialich, é a figura mais divertida da economia espacial. Ele corre provas de trilha de 50 km, fala palavrões como um marujo e é surpreendentemente honesto sobre as chances remotas de sucesso.

O objetivo de sua próxima missão é, nas palavras dele: "Pousar, porra, num asteroide".

Os metais do grupo da platina estão entre as substâncias mais valiosas da Terra. No espaço, algumas rochas são praticamente feitas desse material. Gialich afirma que o minério do asteroide-alvo é de 5.000 a 10.000 vezes mais puro do que o da melhor mina de platina da Terra. O plano é trazer de volta de 1 a 2 toneladas de platina refinada, avaliadas em mais de US$ 80 milhões aos preços atuais.

Passamos uma tarde na sede da AstroForge. Viajar 30 milhões de milhas até um asteroide? "É só 10% do caminho até Marte", disse Gialich, dando de ombros. "Nada demais." As partes difíceis vêm depois.

Nos fundos do galpão, ele demonstrou um laser de alta potência que derrete a rocha do asteroide para que o metal possa ser separado e refinado no espaço. Ele aumentou a potência até que o laser transformasse um pedaço de rocha em vapor incandescente.

Seguindo o exemplo da SpaceX, a AstroForge está criando um negócio de curto prazo para financiar sua grande missão. A empresa comprou várias minas de ouro nos EUA e está utilizando a mesma tecnologia de refino a laser — que planeja usar no espaço — para explorar depósitos terrestres cuja extração não é lucrativa atualmente.

A primeira sonda da AstroForge, Odin (construída em 10 meses por US$ 3,5 milhões), foi perdida após uma falha de energia na estação terrestre interromper a comunicação. Sua próxima tentativa, a DeepSpace-2, já está pronta e será lançada neste outono. O objetivo é pousar em um asteroide. A mineração virá depois.


PARTE V: A POSIÇÃO ESTRATÉGICA SUPERIOR

A era de paz no espaço está chegando ao fim. A China já demonstrou que consegue aproximar um satélite de outro furtivamente e rebocá-lo. A Rússia desenvolveu armas capazes de cegar e destruir satélites. O espaço está rapidamente se tornando um teatro de operações militares.

Centenas de bilhões de dólares serão investidos em capacidades ofensivas e defensivas espaciais na próxima década, incluindo o escudo antimísseis "Golden Dome" dos EUA, atualmente em desenvolvimento.

Como disse um dos fundadores, a corrida pelo controle dessa posição estratégica superior determinará se as regras para o espaço serão redigidas em inglês ou em mandarim.

A SpaceX e a Anduril já garantiram contratos bilionários relacionados ao Golden Dome. Conheça, a seguir, três empresas menores que estão enfrentando esse desafio complexo e importante.


Fortastra

Criando "guarda-costas" para o espaço

Cerca de 12.000 satélites ativos orbitam a Terra atualmente. Espera-se que esse número aumente dez vezes nos próximos anos. No entanto, eles são alvos fáceis, com quase nenhuma capacidade de defesa própria.

A Fortastra está desenvolvendo satélites "guarda-costas" capazes de manobrar e se posicionar ao lado de um satélite valioso para protegê-lo. Eles podem inspecionar um objeto suspeito que esteja se aproximando ou acompanhar de perto uma ameaça.

A grande sacada do fundador Mike Smayda é que a inovação revolucionária reside no "cérebro", e não no "corpo" do equipamento. Um ser humano não conseguiria pilotá-los com eficiência a partir do solo. O guarda-costas precisa pensar por conta própria, utilizando um cérebro com IA para tomar decisões em frações de segundo enquanto está em órbita.

A Fortastra tem pouco mais de um ano de existência e é uma das empresas em estágio inicial presentes aqui. Mas ela está solucionando um problema sério e, após conversarmos com Mike diversas vezes, acreditamos que ele é capaz de concretizar esse projeto. Ele é um veterano da SpaceX que ajudou a solucionar os desafios da reentrada de foguetes e foi cofundador da Hermeus, uma empresa unicórnio do setor de jatos hipersônicos.

Elon Musk planeja lançar até um milhão de satélites para seus centros de dados em órbita. Eles precisarão de proteção. Quem dominar a camada de "defesa" em órbita se tornará uma empresa multibilionária.


True Anomaly

Espaçonaves que perseguem, inspecionam e monitoram outros satélites

A espaçonave "Jackal", da True Anomaly, foi projetada para perseguir satélites-alvo, inspecioná-los e, se receber ordem para tal, interferir neles. É o mais próximo que temos de um caça para a órbita.

A True Anomaly foi fundada em 2022 e foi uma das cerca de doze empresas selecionadas para o projeto de interceptadores espaciais "Golden Dome". A empresa já realizou voos com a espaçonave Jackal, embora os primeiros voos tenham enfrentado alguns contratempos. Daqui para a frente, tudo depende da execução.


Turion Space

Monitora outros satélites e está construindo satélites de "encontro" (rendezvous)

Há mais de um milhão de fragmentos de detritos orbitando a Terra em alta velocidade, além de milhares de satélites ativos. As forças armadas dos EUA querem monitorar espaçonaves estrangeiras. A Turion coloca câmeras em órbita para observá-las de perto.

Conversamos com o fundador Ryan Westerdahl, que trabalhou por oito anos como engenheiro de propulsão na SpaceX. A descrição que ele fez do que a Turion está construindo foi brilhante: "uma câmera em uma bala, fotografando outra bala, enquanto elas passam uma pela outra a vinte vezes a velocidade do som".

Seus satélites DROID capturam imagens em close de outras espaçonaves e as enviam diretamente para o banco de dados de inteligência da Força Espacial dos EUA. A Turion opera esses satélites desde 2023. Agora, a empresa está construindo um satélite espião maior, da classe "GEO".

A Turion também está desenvolvendo seus próprios motores para capturar objetos no espaço. A empresa está criando uma maneira de agarrar suavemente satélites "hostis" e removê-los de suas trajetórias. Em 2024, conquistou um contrato de US$ 32 milhões com a Força Espacial para fornecer três desses satélites de "encontro".

A empresa planeja ampliar sua produção, passando de espaçonaves montadas manualmente para uma capacidade de 40 unidades por ano até 2027.


O que mais criaremos em nossa jornada rumo às estrelas?

Muitas das empresas mencionadas acima fracassarão. O espaço é um desafio imenso.

Mas não subestime o impacto de uma sociedade que simplesmente tenta alcançar as estrelas.

Durante a era Apollo, o número de doutores em ciências e engenharia nos Estados Unidos dobrou.

E, em 1963, o programa Apollo consumia 60% de todo o estoque de chips de computador dos EUA. Isso garantiu demanda para empresas de chips iniciantes, como a Fairchild Semiconductor, permitindo que aprimorassem e acelerassem sua produção — lançando, em última análise, as bases para o que hoje conhecemos como Vale do Silício.

Nunca se pode prever o que uma sociedade inventará em sua trajetória rumo às estrelas.

Encerramos com as palavras de Matt Gialich, CEO da AstroForge, quando lhe perguntamos por que ele tenta minerar asteroides apesar das probabilidades tão desfavoráveis:

“Todos nós já fomos crianças e tivemos sonhos, mas deixamos o dinheiro atrapalhar. Não perca isso. Arrisque-se. Tente. Sonhe alto.”

—Stephen McBride e Dan Steinhart

sexta-feira, 12 de julho de 2024

Escritor Premiado? Ignore

Sabemos que se escreve por vocação, mas também se escreve por destino. Em qualquer caso, a vida literária em uma época de queda brutal na venda de livros impressos e, paradoxalmente, de multiplicação exponencial de escritores, faz com que a carreira do escritor se volte para a busca desesperada de notoriedade através dos canais que conferem respeitabilidade pela premiação adquirida.

Porém, quando os vínculos sociais do demérito são oficializados nos escaninhos do poder, quando o sistema de seleção negativo passou pelo aggiornamento na prática institucional, as oportunidades se abrem para aqueles que de alguma forma estão surfando na onda das camorras usufrutuárias do preferencialismo.

É o caso do Prêmio São Paulo de Literatura oferecido pelo governo do estado dividido em dois: um para obra de ficção de estreia, e outro para autores com mais de um livro publicado. Os vencedores receberão 200 mil mangos cada um.

O edital, bem como as inscrições para o prêmio podem ser obtidos no site da Secretaria de governo .

A primeira exigência consiste em passar pelo cadastro no CADIM, para obter login e senha e entrar no sistema. O Cadastro Informativo dos Créditos não Quitados de Órgãos e Entidades Estaduais existe para dizer que você está limpo com o governo do estado em débitos tributários. Parece brincadeira, mas não é. O dinheiro sai da secretaria da fazenda, e como é possível alguém receber alguma coisa do estado se não provar sua inocência? Uma licitação para comprar um bilhão de reais em arroz importado não precisa dessas tranqueiras, mas a atividade literária, sim.

No segundo requisito, o edital informa que o prêmio está aberto a concorrentes nacionais e internacionais. Clicando na seta indicada, aparecem as condições em que um livro compete. O único dado importante é a data de publicação que deve ser do ano passado. Ficamos sabendo também que “os curadores e os jurados são profissionais com reconhecida experiência e conhecimento na área de literatura, oportunamente nomeados pela Secretária da Cultura, Economia e Indústria Criativas”.

Observo, por antecipação, que os julgadores são mantidos em sigilo, porque a escolha deles é que revelará o truque dos vencedores.

Como ocorre em outros prêmios, serão provavelmente todos com menos de 30 anos, na faixa de idade em que pouco se leu e muito se sabe.

A seguir temos, enfim, “Seus Dados”. Tudo muito simples, incluindo o endereço. E vamos para outra página que repete tudo de novo caso a pessoa física e o autor sejam os mesmos, isto é, se não estão representados pela editora.

No campo seguinte, começam as exigências para filtrar o grande gênio literário que haverá de aparecer do concurso: cópia fotografada de sua RG, CPF e do CADIM estadual que você obteve no site da Secretaria da Fazenda.

Parece surreal que alguém precise apresentar a cara. Seria para saber a cor da pele? Se é de boa aparência, de idade aceitável ou está fora do quadrado previamente inserido no contexto?

Antigamente, quando os costumes eram impessoais e mais meritórios, o prêmio de poesia e prosa implicava necessariamente em o autor assinar com um pseudônimo, colocando o nome legítimo em um pedaço de papel dentro de um envelope lacrado.

Atualmente, os julgadores se escondem, e os concorrentes se expõem com todos os requisitos cadastrais. Como isso é possível? A resposta não possui nenhuma novidade: os prêmios do passado eram legitimados porque a Comissão Julgadora era anunciada com nomes dos principais poetas, cronistas e escritores em evidência na imprensa. O candidato poderia aspirar ao prêmio pelo conhecimento que tinha da obra de seus julgadores. Ao menos era uma esperança. Agora, rompeu-se a transparência e ele sabe que participa só para fazer número, engajando-se na desonestidade dos novos tempos em que o esforço seja recompensado com uma observação sobre si mesmo escrita na contracapa de seus livros e rodapés de jornais do tipo: “finalista do prêmio de melhor escritor do ano de 2023”. Afinal, se participou da farsa, não há por que não usá-la em benefício próprio.

Como o EDITAL informa que o prêmio será concedido tanto a brasileiros nativos como a residentes no exterior, na continuidade do processo de inscrição o proponente precisa preencher o nome da obra e a categoria (se estreante ou não), o nome da editora e o número de 13 dígitos do ISBN fornecido pela CBL, a sempre invocada Câmera Brasileira do Livro. Se publicou no Amazon ou em uma editora de impressão sob demanda, tá ferrado. Se a editora ficar em Portugal, também.

Na etapa seguinte, vem o upload do PDF do miolo e depois da capa. Isto deveria ser proibido, se houvesse qualquer constrangimento com relação à probidade do processo, uma vez que o edital deveria exigir o PDF com apenas o pseudônimo, sem capa, sem apresentação.

Logo após entra uma seção chamada de “Participação” no qual é exigida uma “Cópia simples da Declaração de Intenção de Representação do Prêmio assinada pelo(a) autor(a)”. Se você for o próprio autor precisa dizer que tem a intenção de representar o prêmio a que você concorre? Evidentemente, que sim. O candidato à glória literária imprime uma cópia assentando o compromisso: “DECLARO que, caso seja finalista do Concurso ‘Prêmio São Paulo de Literatura 2024’ e receba a proposta de representá-lo, envidarei esforços para participar de festivais, feiras eventos e/ou eventos culturais, presenciais ou virtuais, determinados pela Secretaria da Cultura, Economia e Indústria Criativas”.

Não falam se vão descontar o espumante e os salgadinhos do coquetel do prêmio que o vencedor receber, mas certamente que este vai fazer uma peregrinação por escolas públicas, dar entrevista para a Folha de SP, para blogueiros e celebridades que lhe farão perguntas sem sequer terem lido meia página do livro. E quem se importa depois que embolsou o dinheiro do prêmio?

E agora, para perplexidade geral, o proponente deverá enviar 10 cópias do livro original no momento que sua inscrição for aceita. Como vai ter alguns milhares de competidores, o PDF enviado não serve para nada, a não ser para inspecionar e dizer que você não foi classificado por causa de algum detalhe, como misteriosamente acontece em licitações do governo. Como a participação deverá ser de milhares de escritores, pode-se imaginar que a Secretaria vai ficar entulhada de livros, que depois vão para um galpão e ficam lá acumulados com os do ano anterior.

Por último, se o pretendente à glória literária não for dotado de qualidades narrativas na difícil arte de ficção, provavelmente estará mais próximo do prêmio. Desde que seu livro seja escrito no estilo mais escorreito possível, sem lantejoulas verbais, sem gírias, mas com algumas obscenidades politicamente relevantes para causar algum chamativo no velho truque de escandalizar como ato propagandístico de autopromoção, sem arcaísmos, mas com algumas brutalidades do léxico, especialmente da escritura neutra.

Basta que a história contenha um ou mais casos de vitimismo, racismo, superação, conflitos de gêneros, angústia existencial e, naturalmente, um final feliz.

Se quiser saber como será decidido o melhor livro do ano, tenho mais uma dica infalível. Leia a seção II do Capítulo II de meu "Os Ossos do Cavalo de Troia". Ali estão descritos os truques de seleção. E, naturalmente, lendo um pouco mais, poderá entender porque meu livro de 2023 não se classifica. Não pense que tentei.


sexta-feira, 30 de junho de 2023

FIM DA AÇÃO AFIRMATIVA


A Ação Afirmativa foi criada na sequência das leis que colocaram fim à discriminação racial nos EUA, nos anos 60-70, no que se conheceu como Movimento pelos Direitos Civis.

Foi baseada no espírito altruísta de reconhecimento de culpa para com o passado escravagista e, simultaneamente, reparação para com os ex-escravos, cuja consequência era a situação social de pobres e desprotegidos.

Com isso, a interpretação das boas intenções migrou lentamente para a consolidação de privilégios.

Segundo o NYTimes, “subescrevendo a opinião da maioria, o presidente do tribunal, John Roberts, ficou do lado dos críticos da política. Ele afirmou que a ação afirmativa é racialmente discriminatória e inconstitucional. ‘Eliminar a discriminação racial significa eliminar tudo isso’, escreveu ele.”

A supressão do princípio da impessoalidade acaba sempre na legalização do favoritismo. Alguém lembrou do Zanin?

As cotas vieram deste princípio e se consolidaram com a ascensão do coitadismo na esteira populista que parece não ter fim.

A decisão da Suprema Corte americana de aboli-la, justamente numa fase em que se institui o racialismo progressivo, questiona as tentativas cada vez mais discriminatórias de buscar privilegiar os “desfavorecidos” pela inserção de mecanismos reparadores, entre eles, a mais perversa de todas as assertivas que já li na perigosa ascensão das ideias autocráticas: a fusão do ambientalismo histérico com o racismo estrutural.

Esse movimento vem ganhando proporções assustadoras, porque se baseia em duas premissas: a de que os ricos (países e pessoas) são os responsáveis pela poluição associada com a de que os descendentes de antigos escravagistas são os devedores de reparações aos descendentes de escravos.

Não faltam estatísticas para suportar estas ideias, até porque se entende que ser um país rico implica em consumir mais energia.

A fusão com o racismo estrutural é uma tentativa de mostrar que as populações em situação de risco ambiental são as mais pobres e, por isso, moralmente os endereços para onde devem ser canalizadas as verbas de reparação, notadamente para os países pobres.

Essas ideias foram geradas dentro da ONU, a organização que se sabe ser frequentada por uma maioria de países pobres, que o são exatamente por serem sempre representadas por marionetes e gatunos. Se não o fossem, não seriam pobres.

Nos EUA, já se tem a lista de cem parlamentares cujas ascendências estão vinculadas ao escravagismo. Descendentes de escravos e negros cativos na mesma legislatura já se abraçam consternados pelas descobertas do passado.

Tomando a isenção do crime pela comprovação da ascendência, o mundo vai caminhando para uma espécie de pureza ancestral semelhante a do nazismo, em que a inclusão do indivíduo nos assuntos de estado era aceita somente com a demonstração da inexistência de sangue judeu nos antepassados, prática que foi copiada da Inquisição Portuguesa na averiguação até o terceiro grau que comprovasse não haver parentesco, primeiro com os judeus e, depois, com os Cristãos Novos.

O racialismo precisa ser confrontado em nossa mentalidade pseudo-intelectual. Por exemplo, na entrevista que deu ao programa Roda Viva, ano passado, na passagem do centenário de comemoração da Semana de Arte Moderna, o convidado Ruy Castro, um carioca da gema, procurou desprezar sua importância falando que não apenas não se leem mais seus autores, como se tratou de um acontecimento sem muita importância, até porque, um de seus financiadores, Paulo Prado, era originário de uma família de escravocratas.

O convidado participou do programa por sua fama de conhecedor da cultura nacional, mas capitulou ao racialismo em preferir o linchamento moral ao dever de reconhecer a importância do autor de Retrato do Brasil para a cultura brasileira.

Isto apenas significa que a decisão da Suprema Corte americana vai repercutir na agitação das ruas, nas colunas de jornais, discursos políticos e redes sociais, onde a racionalidade da decisão será fortemente contestada, até porque a lavagem cerebral do populismo já predomina largamente.

O favoritismo é o pai do privilégio, de onde parte a corrupção moral que transforma o mérito em mera sucata intelectual.

domingo, 1 de janeiro de 2023

Retrospectiva de quatro anos do governo que de imbrochável passou a paumolescente

Carlos U Pozzobon

“When hatred of culture becomes itself a part of culture, the life of the mind loses all meaning.”
—Alain Finkielkraut

Sempre que um político começa a falar sobre o Brasil, sou possuído pela falta de modéstia do Pelé e me pergunto: “é isso que ele acha importante?”

Para fazer um balanço do governo Bolsonaro é preciso uma certa ordem no pensamento, algo extremamente difícil num ambiente de caos. Me limito a alguns quesitos do que um presidente deve ter e atribuo a pontuação de 1 a 5, sendo 1 o mínimo, e 5 o máximo.


1. Capacidade de PERSUASÃO. O cargo por si só pode realizar milagres se o presidente sabe transitar entre os poderes, ficando quieto quando contrariado e alardeando a expectativa de colaboração das pessoas-alvo do discurso. Saber envolver os outros quando eles não parecem muito propensos à colaboração tem sido a rotina do mundo diplomático e não tem por que ser diferente para quem se arroga pretensões democráticas. Bolsonaro fez exatamente o contrário. Nota 1.


2. COERÊNCIA DOUTRINÁRIA. Lula nunca negou sua vinculação com o mundo cubano-bolivariano, e só não se desempenha como um doutrinador por falta de estofo intelectual.

Por sua vez, Bolsonaro se credita uma herança liberal que não faz parte de sua prática. Os próprios bolsonaristas se encarregam de confirmar o antiliberalismo quando apresentam entre as virtudes de seu governo o fato de as estatais terem lucrado em sua gestão. Como se fosse possível confiar em estatais! Como se tivessem se convertido em um templo de virtudes de um governo para outro. Nota 1.


3. Capacidade de mobilizar a sociedade para enfrentar a CONJUNTURA INTERNACIONAL adversa. Cito brevemente a questão da Covid 19: depois de enveredar pelo caminho antivacina, de troçar da ciência e de seus representantes no país, o governo ficou isolado do Estado na condução do combate à pandemia.

Enquanto o governo dizia uma coisa, os institutos Butantan e Osvaldo Cruz e o próprio MS faziam o contrário. Como não havia vantagem política em se manter cloroquinando, o governo voltou atrás depois do arrefecimento da pandemia, mas o dano já estava feito e seu caráter rusguento carimbado.

Outro fator de nossa propensão ao imobilismo foi o tratamento com a questão dos adubos pela Petrobras e Vale. Depois de algumas décadas sem saber o que fazer com uma mina de potássio no coração amazônico, a Petrobras resolve vender os direitos de mineração, para quem? Para uma empresa canadense que já era fornecedora do insumo ao Brasil.

Depois de algumas décadas sem nada fazer com os direitos de exploração do potássio em lavra abundante em Minas Gerais, a Vale resolve vender os direitos de exploração, para quem? Para uma empresa estatal russa que já era fornecedora de potássio para o Brasil.

E o que aconteceu? Os canadenses se viram enredados na questão de parte do subsolo se localizar em terras indígenas. Se Bolsonaro fosse de fato um presidente moderado e competente, persuasivo e aglutinador, teria se reunido com o STF e posto fim ao entrave.

Quanto aos russos, o governo jamais poderia ter permitido o negócio. Se estão fornecendo o produto de suas minas na Bielorrússia, precisando desesperadamente de divisas para compensar o baque com o boicote derivado da guerra à Ucrânia, porque iriam fazer o altruísmo de tornar o Brasil autossuficiente em seu principal insumo agrícola?

O Brasil precisa de quem fale em investimentos estrangeiros. A China está aberta e já participa de parcela significativa da infraestrutura dos países europeus e EUA, e eles não se importam com isso, conquanto que a China faça parte de um consórcio com participação minoritária.

Ora, liderar a formação de consórcios para investimento em ferrovias, hidrovias, estradas e aeroportos deveria ser uma obrigação do governo, mas Bolsonaro preferiu o discurso raso do chauvinismo nacionalista. E, pior de tudo, hostilizando a China abertamente, quando se trata de nosso principal parceiro comercial.

Na questão do petróleo, repete a vacuidade do nada fazer para aumentar a competitividade dos combustíveis, paralisados por entraves de toda a ordem, menos para os poços em que a Petrobras participa, ainda que esta tenha preferido a prospecção em alto-mar, sabendo que o offshore custa mais caro, porém é mais seguro não ter pentelhos protestando na porta. Faltou massa encefálica porque o dia a dia foi consumido em picuinhas de quinta importância.

Da mesma forma, nada foi feito com a mineração, muito menos para expandir a extração do principal fetiche do bolsonarismo antes de ocupar o poder: o nióbio. Vale também para o lítio e o resto da tabela periódica, manietados por uma legislação ambiental capaz de bloquear qualquer iniciativa condizente com nosso potencial natural. Sequer mostrou capacidade intelectual para apresentar uma reforma desta legislação ao Congresso – condição essencial para se posicionar, seja na vitória como na derrota, dentro da obrigação de um esforço para mudar a herança maldita do petismo. Nota 1.


4. Obrigação de TRANSPARÊNCIA em um ambiente cuja corrupção prospera à sombra da falta de informação e manipulação de dados.

Um dos pontos mais marcantes da crítica bolsonarista à educação brasileira se condicionou à ideologização do ensino, ao sexismo precoce e à ideologia de gênero como se fossem políticas educacionais. Poderia atacar o problema na sua nascente, obrigando todas as universidades federais a apresentarem uma planilha de despesas detalhadas por departamento, institutos ou faculdades.

E avançando para cada cátedra em particular, forçar a publicação dos contratos existentes e dos valores aplicados. Com isso, abriria o debate para saber se vale a pena gastar em tais e tais cursos na conjuntura da sociedade de informação. Era uma forma de inserir o Brasil dentro de uma estratégia, e mostrar os “podres da clerezia" acadêmica pelo lado do empreguismo militante. Ao contrário, o governo mostrou incapacidade em definir uma política educacional que colocasse em cheque o doutorismo, a redundância, as mordomias e privilégios da cátedra. Seria uma limpeza do terreno para preparar uma reforma. Preferiu o confronto verbal à ação reformadora. Nota 1.


5. É preciso SEPARAR a PESSOA de sua AÇÃO. Isto vale para a vida artística e para a vida em geral.
O governante FHC foi melhor que o intelectual FHC. O jogador Pelé sempre foi melhor que a figura pública. E Bolsonaro demonstrou que ficou empatado entre o ser e o governante. Não mudou de discurso desde quando era deputado federal. E tampouco de atitude. Não se pode acusá-lo de incoerência. Nota 5.


6. ZELO pela IMAGEM do país no cenário internacional. Obrigação que faz parte não só do comportamento, como também da estratégia de inserção do Brasil no mundo.

Bolsonaro praticou uma política externa sectária, começando pelos comentários insultantes sobre a mulher do Macron, do sincericídio político com governantes sobre os quais deveria ficar calado, e do entreguismo chocante ao aprovar a venda da Embraer para a Boeing, felizmente retomada depois da crise desta em sua linha de produção de jatos comerciais.

Se excetuarmos as empresas com vínculos estatais, especialmente as do rol da Lava Jato que nos envergonharam como nação, o Brasil possui uma participação econômica ativa cada vez maior no cenário internacional, não só pela globalização generalizada, como pela importância do agronegócio na segurança alimentar e no fornecimento de matérias-primas.

O Brasil estava na vanguarda do fornecimento de jatos de média capacidade para um mercado cada vez maior das linhas comerciais de voos domésticos de curto alcance. Subitamente, o entreguismo conseguiu mobilizar a atenção de toda a imprensa pusilânime, fazendo deste florescente mercado um mau negócio, uma atividade sem futuro, quando Japão e Coreia do Sul mobilizavam-se para começar a agir com a criação de empresas próprias. Uma campanha deslavada foi o bastante para os militares – que no passado foram a inspiração da Embraer – capitularem sem qualquer resistência à venda da Embraer. Nota 1.

Neste quesito, entra a questão ambiental. Nenhum governo conseguiu eliminar o avanço das queimadas em terras griladas ou devolutas no território nacional. Porém, certas medidas de contenção podem e devem ser executadas. Confundiu os interesses do agronegócio com a ocupação ilegal e a devastação subsequente e, com isso, atraiu para si a ira da oposição verde-jurássica.

Não conseguindo desmentir os dados do INPE, o governo saiu atrás do aluguel de satélite para seu inventário próprio de queimadas. Como resultado, atraiu para si a responsabilidade por incêndios naturais e sazonais que nunca antes tinham sido atribuídos aos governos Lula, Dilma e Temer que fizeram questão de se descolar dos incêndios.

O lado positivo foi ter afastado dos órgãos ambientais pessoas acusadas de corrupção com a venda de madeira nativa. Nota 2.


7. POLARIZAÇÃO. A constância com que se repetiam as mesmas acusações contra o STF e membros do Senado e Congresso, seguidas pelas respostas arbitrárias de juízes assumindo o papel de comissários soviéticos, criou um ambiente psicológico em que o partidário do governo se defendia das críticas procurando algo compensatório aos atos dos governos passados que servissem de comparação para inocentar o governo atual com um acontecimento quantitativamente muito pior dos anteriores.

A psicologia de que o adversário sendo pior justifica a má conduta do governo não encontra respaldo na ciência política, e é um indicador do sectarismo produzido pela polarização. O jogo duplo do relativismo praticado por ambos os lados tornou-se uma prática política exercida por jornalistas, blogueiros, comentaristas de redes sociais transformados em militantes do culto à personalidade. Se encontrar um erro equivalente no histórico do adversário alivia a responsabilidade da condenação do governante, o portador de tal psicologia não faz outra coisa senão defender a impunidade.

Ninguém faz campanha eleitoral defendendo o mal menor. Por que ao assumir o governo ele se torna uma recorrência constante? Nota 2.


8. CORRUPÇÃO. O primeiro debate sobre corrupção no governo começou com as rachadinhas no episódio que envolveu Fabricio Queiroz e um advogado do grupo de Bolsonaro chamado Frederick Wassef.

O argumento é de que rachadinha todo mundo pratica, logo o governo não poderia ser condenado por isso. Essa concessão ética demonstra a toxidade em que se transformou a política no Brasil.

Lentamente começaram a aparecer os indícios de que o objetivo do grupo cercando o presidente era enriquecer rapidamente.

O episódio do filho Flávio justificar a compra de uma mansão com os lucros provenientes da franquia de uma loja de chocolates em um shopping, serviu de paradigma para um princípio que se repetiria até o fim do mandato: qualquer desculpa vale já que nada é mais tão grave que mereça preocupação com a verdade.

Especialmente quando Bolsonaro sancionou o golpe do congresso contra as medidas de combate à corrupção ao inserir uma cláusula de restrição às delações premiadas, excluindo das delações todos os casos de corrupção do denunciante que não estivessem no foco da investigação. Foi como se um bandido, descarregando um revólver em cinco pessoas, não pudesse ser processado pelo ato cometido contra quatro vítimas porque o objeto da denúncia era de apenas uma.

O precedente foi a denúncia da Odebrecht, quando apareceu o nome de um escritório de advocacia comandado pelo filho de um magistrado do STJ que conspirava com o pai para inocentar os acusados de crimes contra a ordem pública, configurando a existência de crime organizado. O caso teve ampla repercussão e, subsequentemente, amplo esquecimento. Juntamente com outros casos, foi uma contribuição de Bolsonaro para a antologia da Ciência Jurídica do Direito Contra a Verdade.

O que se pode dizer de um governo que em palavras diz combater a corrupção, mas que decreta sigilo de documentos oficiais sem nenhuma justificativa relacionada a segredos de ESTADO? Que criticava severamente o sigilo das despesas dos cartões corporativos da Dilma e adota a mesma prática com despesas ainda maiores?

Quando nos primeiros dias de governo, em viagem internacional, Mourão assumindo o posto presidencial decretou sigilo de dados públicos, outorgando o direito para 1300 servidores decidir o que o público pode saber das ações das excelsas figuras da administração federal, não só revelou qual era a ideia do governo para defender-se da luta pela transparência dos órgãos públicos que vinha se expandindo com a Lei de Acesso à Informação, como uma confissão tardia do que foi o regime militar com relação às estatais.

Não obstante este acinte contra a lógica elementar de conduta do alto escalão, os bolsonaristas repetiram durante os quatro anos, como ventríloquos de um teatro de marionetes, o estupefaciente refrão de que o governo não tem nem admite corrupção. Nota 1.


9. FOCO. O discurso cri-cri praticado durante quatro anos de hostilidades encomendadas através dos proxies de Bolsonaro no Congresso, e diretamente por suas declarações desde a pandemia, desencadeou uma perseguição da imprensa de um modo ofensivo tão estridente que gerou repulsa na sociedade contra ele.

Acreditando que o comando das informações por parte dos grupos organizados pelos filhos desde o Planalto seria suficiente e necessário para manter a supremacia eleitoral, Bolsonaro procurou tirar proveito do confronto com o STF, recebendo de volta uma perseguição constante contra seu grupo que se manteve até os últimos dias do governo.

Nem mesmo o proveito vigente da vitimização pelo arbítrio praticado por alguns juízes contra pessoas de seu grupo foi suficiente para manter a supremacia. Ao contrário, transformou o cotidiano da nação em uma recorrência de insultos, baixarias e vulgaridades como nunca se viu na política nacional. O resultado é que a verdadeira política — aquela em que os problemas do Brasil estavam na ordem do dia —, desapareceu dando lugar a este emaranhado quimérico de superficialidades.

Ficou evidente que o PROPÓSITO de desviar o discurso dos males praticados pela estrutura estatal no Brasil foi amplamente atendido. Pelo acúmulo de bobagens, pela derrota contra o arbítrio devolvido pela fustigação com vara curta, que era um artifício para um levante que lhe colasse no poder permanentemente, não foi alcançado.

Frustrado em seu propósito de um golpe branco, Bolsonaro se refugiou na MÁSCARA de democrata impotente. Em poucos meses passou de imbrochável a paumolescente.


domingo, 30 de outubro de 2022

O pesadelo eleitoral de 22

Carlos U Pozzobon

Se não me engano, foi Tavares Bastos que no século XIX disse que a política brasileira as vezes se parece com uma galeria de estátuas mutiladas. O que se viu este ano não tem precedentes na história da República. A começar com um candidato muito seguro da vitória pela exposição na mídia, com um histórico de cabriolas insultantes tanto a Lula como a Bolsonaro. Me refiro a Marco Antonio Villa, o professor de história mais próximo do surto verborrágico outrora tão valorizado nas tribunas. No passado, se elegeria senador. No presente, não foi eleito. Cito Villa porque percebi que o eleitorado rejeitou todos os candidatos com algum verniz intelectual. E não só na oposição: no Bolsonarismo também. Roberto Motta, engenheiro de formação e especializado em segurança pública, defensor de Bolsonaro no Rio, não se elegeu também. Estava deslocado da métrica obtusa que coleta votos.

José Serra, ex-tudo, não conseguiu o mandato downgrade de deputado federal. O PSDB percorreu a sina do suicídio político a partir de 2014, especialmente com a chegada de Dória, que dando uma rasteira em Andrea Matarazzo, o candidato natural a prefeito em 2016, deixou-o tão humilhado pela falta de apoio da direção do partido que caiu fora amargurado. Dória teve uma ascensão meteórica e acabou sendo traído pela ambição desmedida. Jogou fora a reeleição certa em Sampa, mobilizou o baixo clero do Partido, conquistou a vaga de presidenciável e, por fim, foi traído pela conspiração da gerontocracia que mais uma vez se curvou ao PT, e saiu de cena de mansinho, deixando o PSDB na irrelevância de seu reboquismo. Joyce Hasselman, rompida com o bolsonarismo, migrou para o PSDB mal sabendo que estava entrando em uma casa arrombada: foi descartada.

Simone Tebet protagonizou, juntamente com Ciro Gomes, os maiores fiascos eleitorais. No segundo mandato como senadora, prestes a ser mandada para casa como ocorreu em 2018 com Ana Amélia no RS, Simone esqueceu o que disse de Lula e do PT no primeiro turno e se transformou em cabo eleitoral dele, algo que demonstra que pessoas inteligentes não estão isentas de cometer burrice política, como advertiu Jean-François Revel. Acredita em ganhar um ministério. Mas tudo indica que vai ser uma embriagues passageira que ao fim, ou entra para o PT e pede para que “esqueçam o que eu disse”, ou sai do governo envergonhada como Joyce Hasselman.

As eleições destravaram muitas coisas que não estavam no modo de pensar da ciência política do país. Pazuello foi o segundo deputado com mais votos no Rio de Janeiro sem nunca ter sido político, e com uma exposição midiática tão negativa que qualquer racionalista político diria que não teria votos. Quem elegeu Pazuello? Os evangélicos? Duvido. Eles tem seus próprios pastores candidatos. A resposta deve estar na família militar, numerosa no Rio e uma das mais ativas presenças do bolsonarismo das redes sociais. Antigamente militares eram proibidos de votar. A lógica era de que uma instituição alicerçada na disciplina não poderia sequer mencionar preferências políticas. O populismo se encarregou de liquidar com a lógica.

O terceiro caso de derrota em que os derrotados não conseguiram entender o que se passou ocorreu com o partido Novo. De 12 deputados se reduziu a 3. Felipe D’Ávila teve menos de 600 mil votos. O que aconteceu?

Uma sociedade que vive para o espetáculo, que tem um povo atrelado à cultura do entretenimento, adestrado para o hedonismo como compensação para a vilificação que lhe é imposta na mais desavergonhada descompostura ética pós-petrolão, pode ser sensível a apelos morais?

Muito pouco. Só em alguns nichos se encontra a disposição para conferir dignidade a princípios e prudência em escolhas. O resto foi tudo dominado. E esta dominação é exatamente esta: a política passou a ser um puxadinho da corrupção legalizada no orçamento secreto e financiamento partidário, os dois venenos que danaram a política brasileira sem remissão. Ninguém está preocupado com a moralidade pública quando ela se mostra um obstáculo ao próprio futuro político do candidato. A derrota do Novo confirma que o estoicismo administrativo não produz resultados em uma população niilista.

Os dois grandes polos vitoriosos de um Brasil sem nenhum futuro constituem o petismo e o bolsonarismo. O petismo através da clerezia acadêmica, os sindicatos e organizações sociais de bairros, os índios de fantasia, os quilombolas de batuque e supostos sem-terra, na verdade garimpeiros da propriedade alheia, as ONGs, a parte do funcionalismo gazeteiro, todos escoltados pela tradição intelectual anti-americanista e anti-capitalista latino-americana.

O bolsonarismo ficará enraizado em certas elites do funcionalismo amedrontadas com o bolivarianismo, os evangélicos sempre atentos ao tilintar das moedas que vem com Deus Acima de Tudo, o conservadorismo de rosário e incenso, o estatismo militar, espécie de socialismo no armário que recusando as privatizações não se constrange em vestir a máscara de liberal, incapaz de esboçar uma estratégia de desenvolvimento que não seja a simples ocupação do poder, onde o verde-amarelismo que cerca o presidente demonstrou em 4 anos que não passava de uma elite de aproveitadores, espelhando o petismo e complementando-o no “deixa estar para ver como é que fica”.

Foram estas duas grandes maiorias que se apossaram das redes sociais e se consolidaram nas eleições. Não houve discussão dos problemas nacionais. A preocupação dos candidatos era com o adversário e não com o Brasil. Tudo se passou como se o país estivesse pronto, como as sociais democracias europeias, e restasse apenas questiúnculas secundárias. Em lugar de discutir a cozinha, nossos candidatos se limitaram a falar em como arrumar a mesa do banquete. O angu que vai ser servido é o mesmo de sempre.

Um país que tem 96% do orçamento empenhado em despesas permanentes pode se sentir protegido contra os abutres das verbas públicas se não fosse o caso dos estragos de nosso sistema político ultrapassarem a casa dos 4% restantes. Porque nos 96% estão os abusos, os contratos dos laranjas, as mordomias e privilégios de nossa segregação social organizada que as eleições foram capazes de mostrar que são não apenas intocáveis, como principalmente, intratáveis e inquestionáveis por aqueles que tinham obrigação de se manifestar sobre isso. Não se fala em reformas, não se fala em mudanças, não se fala em desenvolvimento. Tudo o que se pretende e pratica é ocupar o poder e depois distribuí-lo entre os camaradas de jornada.


sexta-feira, 11 de março de 2022

CRETINISMO EM ALTA

Carlos U Pozzobon

Nada pode ser mais nocivo nestes momentos de epidemia e guerra do que o cretinismo intelectual.

Com uma psicologia própria para relativizar a gravidade daquilo que vemos cotidianamente à nossa volta, o cretino nos informa que a OTAN não pode ser inocentada na invasão russa da Ucrânia porque no passado — sempre tem o passado para usar como régua apaziguadora — invadiu a Líbia, bombardeou Montenegro e mais uma penca de países À DISPOSIÇÃO para minimizar o ataque russo. O relativista mal consegue perceber o ridículo em que se mete porque está fortemente escorado na rede de solidariedade que todo o idiota procura para legitimação pessoal de suas ideias.

E consegue: quanto mais idiota, maior é a prática de abaixo-assinados e declarações públicas de solidariedade contra alguém que procura criticar seus disparates. Um idiota nunca está sozinho.

E a União Europeia, então? Que autoridade tem aqueles países de intervirem em um conflito (ainda que sejam os acolhedores dos refugiados) de que eles mesmos participaram nos tempos coloniais?

O cretino tem uma dimensão intelectual de terra arrasada: se um país cometeu um crime, não importa o quanto de (r)evoluções tenha ocorrido, quantos governos diferentes tenha experimentado ao longo de sua história, que a mancha permanece para sempre.

A pobre Bélgica não pode piar por causa do rei Leopoldo. A Inglaterra tem um dívida histórica com a Índia. A França, nem falar, e a Alemanha, que é a maior socorrista da Europa, não é preciso citar a reputação que o cretino na maior cara de pau costuma evocar.

O argumento acusatório não é menos intimidante: se Putin matar um milhão de ucranianos sempre sobrará uma reserva moral para dizer que Hitler matou muito mais, e assim ficamos sabendo mais uma vez que Putin não é tão ruim como a maldita imprensa vem apregoando.

E o assunto não se restringe à guerra. O cretinismo está presente em todas as esferas da vida nacional.

Ainda hoje, justificando o aumento no preço dos combustíveis, uma recorrente autoridade dos emirados cariocas — aqueles que se alternam conforme o sultanato passa do poder da companheirada para o da milicada — disse que o preço da gasolina em outros países é ainda mais alto que no Brasil. Estamos salvos, portanto, de algo muito pior.

Não seria de perguntar à autoridade sultanesca se por acaso esses outros países também colocam 27% de etanol na mistura e ainda possuem parte considerável de seu petróleo extraído do próprio território com custos quase fixos que não representam ¼ do barril no mercado internacional hoje?

Não deveria ser o preço da gasolina uma razão da média aritmética ponderada de todos os fatores de custos? Afinal para que serve o pré-sal se nossos combustíveis estão ancorados no propalado Preço de Paridade Internacional?

É claro que a complexidade aumenta quando se sabe que a Petrobras não refina o que extrai do pré-sal porque suas refinarias estão sucateadas e incapacitadas de destilar nosso tipo de óleo. Mas e daí?

Ela não exporta justamente para equalizar a diferença entre o óleo importado e o próprio? Ou ela exporta apenas para benefício de si mesma? Não cabe nenhuma punição ao seu fracasso em benefício da nação?

Quanto mais se revolver a capa de cretinismo que tomou conta do país, mais difícil acreditar que uma saída eleitoral possa nos redimir da mentalidade distorcida que tomou conta de nossa gente.

Mas essa é a diferença que carregamos com a maldição de Samuel Huntington quando disse que a América Latina não pertence à civilização ocidental. Não pertence, digo eu, porque não pensa como o Ocidente. Vive redemoinhando nas vicissitudes de seu colapso intelectual.

[PS: se alguém deseja conhecer as ideias de Putin (e suspeito que parte do direcionamento de sua fortuna) reverberadas no Brasil, deve ler o artigo do MSIA. Me abstenho de criticar parágrafo por parágrafo o longo artigo. Menciono apenas que ali estão esboçadas as ideias que justificam a Ucrânia ser considerada uma nação composta por organizações nazistas, mais ou menos como se o Brasil fosse invadido e uma analista se dedicasse a explicar nossa estrutura política com as forças atuantes de organizações do crime organizado como o Comando Vermelho, o PCC, as milícias nas capitais e o MST no interior para justificar a invasão. Sabendo o que a Ucrânia passou nas mãos de Stálin no Holodomor e não perceber que os alemães de Hitler pudessem assumir o papel de libertadores, já não é mais uma questão de hipocrisia e cretinice: é delinquência intelectual mesmo.]


A Ucrânia e a Devoção Nazifascista Anglo-americana

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2022

Moro na mira

Carlos U Pozzobon

O manifesto divulgado anteontem de empresários, artistas e intelectuais em apoio a Lula tem um significado que transcende o fator Bolsonaro, embora seja usado para esconder as reais intenções do grupo. O manifesto começa assim:
“Mais do que eleger um presidente, em 2022 o Brasil fará plebiscito entre continuar o desastre ou retomar a estabilidade democrática-institucional, o fim do negacionismo, a volta da empatia social e a retomada de um desenvolvimento sustentável. Não há razão que justifique adiar para o segundo turno, correr o risco das incertezas decorrentes de disputas secundárias, e principalmente os riscos de atos fora da Constituição. Por isso, apelamos a todos os democratas, os candidatos e seus eleitores, para que nos unamos no primeiro turno a Luiz Inácio Lula da Silva.”

A afirmação de que “não há razão que justifique adiar para o segundo turno” a disputa eleitoral só pode ser uma tolice. Como o intervalo entre o primeiro e o segundo turno poderá causar “riscos de atos fora da Constituição”, se estes atos ocorrem cotidianamente? A violação diária da Constituição tem se tornado tão banal que evidentemente o texto sugere que se criaria um estado de anarquia. Neste caso, se trata de um erro crasso. Em todo o mundo a anarquia sucede as eleições e não as precede.

Mas será que estes empresários, políticos e intelectuais esqueceram dos black blocs quebrando tudo o que encontravam pela frente? Será que esqueceram as invasões de terra ao arbítrio de bandidos ligados ao PT? De ocupação de escolas e universidades?


A pista para saber o que está acontecendo nos bastidores foi dada por Aloysio Nunes Ferreira, um dos artífices da articulação da candidatura “Lula em Primeiro Turno”. E a razão cristalina não poderia ser outra: a ameaça não é Bolsonaro, usado como bode expiatório, mas Sérgio Moro, o homem que segundo Aloysio “é um juiz de primeira instância que teve alguma conduta na justiça altamente contestada não só com teor das sentenças que proferiu, mas também em razão do fato de ter se aproveitado do poder judiciário, em aliança com uma facção do Ministério Público, para fazer política e galgar postos de poder político. Fora isso, não tem mais nada que o credencie para ser presidente da República do Brasil. O que ele tem? O fato de ser juiz? [...] Porque ele se distingue? Porque realmente conseguiu um grande apoio da mídia e soube cultivar, aproveitar e fazer crescer, mas que agora vai se desvanecendo”.

Ou seja, as sentenças de Moro “altamente contestadas” são mais nocivas ao país que a governança do PT. Comprova que realmente o PSDB, através de Alckmin e Aloysio, se transformou num puxadinho do PT e o maior temor é a figura apolínea de Sérgio Moro, um homem que pretende restabelecer a dignidade que o Brasil viveu no período da Lava Jato — um curto período que haverá de ficar na história do Brasil como um momento em que a corrupção foi confrontada e condenada pela avalanche das ruas e a integridade de um setor do judiciário — e que a canalhocracia política se une para acabar de todas as formas, começando com a perseguição do TCU e agora a aliança com Lula, este homem que o manifesto afirma ser a personificação da “volta da empatia”.

O leitor não precisa ser um especialista em Brasil para entender que a corrupção generalizada funciona como um consórcio para que tudo seja abafado com toneladas de salamaleques, homenagens recíprocas, distribuições de honrarias, banquetes e celebrações de aniversários, títulos honoris causa emanados do entusiasmo desmedido que causa uma mala de dinheiro ou conta bancária em paraíso fiscal, garantida sempre por aqueles princípios recorrentes das autoridades judiciárias de que “ninguém pode ser condenado sem o devido processo legal”, que nunca se sabe quando vai aparecer, a menos daqueles que por acaso caíram nas mãos de Moro que teve a audácia de não se fazer de dissimulado.

Realmente, o manifesto seria preocupante, se não fosse a singular situação em que nos encontramos, com os partidos políticos em estado tal de decomposição que sequer são necessários para eleger um presidente. Isto não diminui as dificuldades de Moro, exatamente porque deste pântano partidário nasceu o fundo eleitoral e o orçamento secreto, os dois maiores inimigos da democracia, exatamente naquele parágrafo da constituição que diz ser a atividade eleitoral franqueada a todos os cidadãos. Como um cidadão comum poderá ombrear outro que recebeu alguns milhões para subornar eleitores é a grande preocupação das eleições deste ano. Pelo menos a garantia de que a casa não se renova. Novamente, a corrupção se uniu em consórcio para refinar uma autocracia à brasileira. Esta é a dificuldade e não manifestos de apoio a Lula.