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domingo, 1 de janeiro de 2023

Retrospectiva de quatro anos do governo que de imbrochável passou a paumolescente

Carlos U Pozzobon

“When hatred of culture becomes itself a part of culture, the life of the mind loses all meaning.”
—Alain Finkielkraut

Sempre que um político começa a falar sobre o Brasil, sou possuído pela falta de modéstia do Pelé e me pergunto: “é isso que ele acha importante?”

Para fazer um balanço do governo Bolsonaro é preciso uma certa ordem no pensamento, algo extremamente difícil num ambiente de caos. Me limito a alguns quesitos do que um presidente deve ter e atribuo a pontuação de 1 a 5, sendo 1 o mínimo, e 5 o máximo.


1. Capacidade de PERSUASÃO. O cargo por si só pode realizar milagres se o presidente sabe transitar entre os poderes, ficando quieto quando contrariado e alardeando a expectativa de colaboração das pessoas-alvo do discurso. Saber envolver os outros quando eles não parecem muito propensos à colaboração tem sido a rotina do mundo diplomático e não tem por que ser diferente para quem se arroga pretensões democráticas. Bolsonaro fez exatamente o contrário. Nota 1.


2. COERÊNCIA DOUTRINÁRIA. Lula nunca negou sua vinculação com o mundo cubano-bolivariano, e só não se desempenha como um doutrinador por falta de estofo intelectual.

Por sua vez, Bolsonaro se credita uma herança liberal que não faz parte de sua prática. Os próprios bolsonaristas se encarregam de confirmar o antiliberalismo quando apresentam entre as virtudes de seu governo o fato de as estatais terem lucrado em sua gestão. Como se fosse possível confiar em estatais! Como se tivessem se convertido em um templo de virtudes de um governo para outro. Nota 1.


3. Capacidade de mobilizar a sociedade para enfrentar a CONJUNTURA INTERNACIONAL adversa. Cito brevemente a questão da Covid 19: depois de enveredar pelo caminho antivacina, de troçar da ciência e de seus representantes no país, o governo ficou isolado do Estado na condução do combate à pandemia.

Enquanto o governo dizia uma coisa, os institutos Butantan e Osvaldo Cruz e o próprio MS faziam o contrário. Como não havia vantagem política em se manter cloroquinando, o governo voltou atrás depois do arrefecimento da pandemia, mas o dano já estava feito e seu caráter rusguento carimbado.

Outro fator de nossa propensão ao imobilismo foi o tratamento com a questão dos adubos pela Petrobras e Vale. Depois de algumas décadas sem saber o que fazer com uma mina de potássio no coração amazônico, a Petrobras resolve vender os direitos de mineração, para quem? Para uma empresa canadense que já era fornecedora do insumo ao Brasil.

Depois de algumas décadas sem nada fazer com os direitos de exploração do potássio em lavra abundante em Minas Gerais, a Vale resolve vender os direitos de exploração, para quem? Para uma empresa estatal russa que já era fornecedora de potássio para o Brasil.

E o que aconteceu? Os canadenses se viram enredados na questão de parte do subsolo se localizar em terras indígenas. Se Bolsonaro fosse de fato um presidente moderado e competente, persuasivo e aglutinador, teria se reunido com o STF e posto fim ao entrave.

Quanto aos russos, o governo jamais poderia ter permitido o negócio. Se estão fornecendo o produto de suas minas na Bielorrússia, precisando desesperadamente de divisas para compensar o baque com o boicote derivado da guerra à Ucrânia, porque iriam fazer o altruísmo de tornar o Brasil autossuficiente em seu principal insumo agrícola?

O Brasil precisa de quem fale em investimentos estrangeiros. A China está aberta e já participa de parcela significativa da infraestrutura dos países europeus e EUA, e eles não se importam com isso, conquanto que a China faça parte de um consórcio com participação minoritária.

Ora, liderar a formação de consórcios para investimento em ferrovias, hidrovias, estradas e aeroportos deveria ser uma obrigação do governo, mas Bolsonaro preferiu o discurso raso do chauvinismo nacionalista. E, pior de tudo, hostilizando a China abertamente, quando se trata de nosso principal parceiro comercial.

Na questão do petróleo, repete a vacuidade do nada fazer para aumentar a competitividade dos combustíveis, paralisados por entraves de toda a ordem, menos para os poços em que a Petrobras participa, ainda que esta tenha preferido a prospecção em alto-mar, sabendo que o offshore custa mais caro, porém é mais seguro não ter pentelhos protestando na porta. Faltou massa encefálica porque o dia a dia foi consumido em picuinhas de quinta importância.

Da mesma forma, nada foi feito com a mineração, muito menos para expandir a extração do principal fetiche do bolsonarismo antes de ocupar o poder: o nióbio. Vale também para o lítio e o resto da tabela periódica, manietados por uma legislação ambiental capaz de bloquear qualquer iniciativa condizente com nosso potencial natural. Sequer mostrou capacidade intelectual para apresentar uma reforma desta legislação ao Congresso – condição essencial para se posicionar, seja na vitória como na derrota, dentro da obrigação de um esforço para mudar a herança maldita do petismo. Nota 1.


4. Obrigação de TRANSPARÊNCIA em um ambiente cuja corrupção prospera à sombra da falta de informação e manipulação de dados.

Um dos pontos mais marcantes da crítica bolsonarista à educação brasileira se condicionou à ideologização do ensino, ao sexismo precoce e à ideologia de gênero como se fossem políticas educacionais. Poderia atacar o problema na sua nascente, obrigando todas as universidades federais a apresentarem uma planilha de despesas detalhadas por departamento, institutos ou faculdades.

E avançando para cada cátedra em particular, forçar a publicação dos contratos existentes e dos valores aplicados. Com isso, abriria o debate para saber se vale a pena gastar em tais e tais cursos na conjuntura da sociedade de informação. Era uma forma de inserir o Brasil dentro de uma estratégia, e mostrar os “podres da clerezia" acadêmica pelo lado do empreguismo militante. Ao contrário, o governo mostrou incapacidade em definir uma política educacional que colocasse em cheque o doutorismo, a redundância, as mordomias e privilégios da cátedra. Seria uma limpeza do terreno para preparar uma reforma. Preferiu o confronto verbal à ação reformadora. Nota 1.


5. É preciso SEPARAR a PESSOA de sua AÇÃO. Isto vale para a vida artística e para a vida em geral.
O governante FHC foi melhor que o intelectual FHC. O jogador Pelé sempre foi melhor que a figura pública. E Bolsonaro demonstrou que ficou empatado entre o ser e o governante. Não mudou de discurso desde quando era deputado federal. E tampouco de atitude. Não se pode acusá-lo de incoerência. Nota 5.


6. ZELO pela IMAGEM do país no cenário internacional. Obrigação que faz parte não só do comportamento, como também da estratégia de inserção do Brasil no mundo.

Bolsonaro praticou uma política externa sectária, começando pelos comentários insultantes sobre a mulher do Macron, do sincericídio político com governantes sobre os quais deveria ficar calado, e do entreguismo chocante ao aprovar a venda da Embraer para a Boeing, felizmente retomada depois da crise desta em sua linha de produção de jatos comerciais.

Se excetuarmos as empresas com vínculos estatais, especialmente as do rol da Lava Jato que nos envergonharam como nação, o Brasil possui uma participação econômica ativa cada vez maior no cenário internacional, não só pela globalização generalizada, como pela importância do agronegócio na segurança alimentar e no fornecimento de matérias-primas.

O Brasil estava na vanguarda do fornecimento de jatos de média capacidade para um mercado cada vez maior das linhas comerciais de voos domésticos de curto alcance. Subitamente, o entreguismo conseguiu mobilizar a atenção de toda a imprensa pusilânime, fazendo deste florescente mercado um mau negócio, uma atividade sem futuro, quando Japão e Coreia do Sul mobilizavam-se para começar a agir com a criação de empresas próprias. Uma campanha deslavada foi o bastante para os militares – que no passado foram a inspiração da Embraer – capitularem sem qualquer resistência à venda da Embraer. Nota 1.

Neste quesito, entra a questão ambiental. Nenhum governo conseguiu eliminar o avanço das queimadas em terras griladas ou devolutas no território nacional. Porém, certas medidas de contenção podem e devem ser executadas. Confundiu os interesses do agronegócio com a ocupação ilegal e a devastação subsequente e, com isso, atraiu para si a ira da oposição verde-jurássica.

Não conseguindo desmentir os dados do INPE, o governo saiu atrás do aluguel de satélite para seu inventário próprio de queimadas. Como resultado, atraiu para si a responsabilidade por incêndios naturais e sazonais que nunca antes tinham sido atribuídos aos governos Lula, Dilma e Temer que fizeram questão de se descolar dos incêndios.

O lado positivo foi ter afastado dos órgãos ambientais pessoas acusadas de corrupção com a venda de madeira nativa. Nota 2.


7. POLARIZAÇÃO. A constância com que se repetiam as mesmas acusações contra o STF e membros do Senado e Congresso, seguidas pelas respostas arbitrárias de juízes assumindo o papel de comissários soviéticos, criou um ambiente psicológico em que o partidário do governo se defendia das críticas procurando algo compensatório aos atos dos governos passados que servissem de comparação para inocentar o governo atual com um acontecimento quantitativamente muito pior dos anteriores.

A psicologia de que o adversário sendo pior justifica a má conduta do governo não encontra respaldo na ciência política, e é um indicador do sectarismo produzido pela polarização. O jogo duplo do relativismo praticado por ambos os lados tornou-se uma prática política exercida por jornalistas, blogueiros, comentaristas de redes sociais transformados em militantes do culto à personalidade. Se encontrar um erro equivalente no histórico do adversário alivia a responsabilidade da condenação do governante, o portador de tal psicologia não faz outra coisa senão defender a impunidade.

Ninguém faz campanha eleitoral defendendo o mal menor. Por que ao assumir o governo ele se torna uma recorrência constante? Nota 2.


8. CORRUPÇÃO. O primeiro debate sobre corrupção no governo começou com as rachadinhas no episódio que envolveu Fabricio Queiroz e um advogado do grupo de Bolsonaro chamado Frederick Wassef.

O argumento é de que rachadinha todo mundo pratica, logo o governo não poderia ser condenado por isso. Essa concessão ética demonstra a toxidade em que se transformou a política no Brasil.

Lentamente começaram a aparecer os indícios de que o objetivo do grupo cercando o presidente era enriquecer rapidamente.

O episódio do filho Flávio justificar a compra de uma mansão com os lucros provenientes da franquia de uma loja de chocolates em um shopping, serviu de paradigma para um princípio que se repetiria até o fim do mandato: qualquer desculpa vale já que nada é mais tão grave que mereça preocupação com a verdade.

Especialmente quando Bolsonaro sancionou o golpe do congresso contra as medidas de combate à corrupção ao inserir uma cláusula de restrição às delações premiadas, excluindo das delações todos os casos de corrupção do denunciante que não estivessem no foco da investigação. Foi como se um bandido, descarregando um revólver em cinco pessoas, não pudesse ser processado pelo ato cometido contra quatro vítimas porque o objeto da denúncia era de apenas uma.

O precedente foi a denúncia da Odebrecht, quando apareceu o nome de um escritório de advocacia comandado pelo filho de um magistrado do STJ que conspirava com o pai para inocentar os acusados de crimes contra a ordem pública, configurando a existência de crime organizado. O caso teve ampla repercussão e, subsequentemente, amplo esquecimento. Juntamente com outros casos, foi uma contribuição de Bolsonaro para a antologia da Ciência Jurídica do Direito Contra a Verdade.

O que se pode dizer de um governo que em palavras diz combater a corrupção, mas que decreta sigilo de documentos oficiais sem nenhuma justificativa relacionada a segredos de ESTADO? Que criticava severamente o sigilo das despesas dos cartões corporativos da Dilma e adota a mesma prática com despesas ainda maiores?

Quando nos primeiros dias de governo, em viagem internacional, Mourão assumindo o posto presidencial decretou sigilo de dados públicos, outorgando o direito para 1300 servidores decidir o que o público pode saber das ações das excelsas figuras da administração federal, não só revelou qual era a ideia do governo para defender-se da luta pela transparência dos órgãos públicos que vinha se expandindo com a Lei de Acesso à Informação, como uma confissão tardia do que foi o regime militar com relação às estatais.

Não obstante este acinte contra a lógica elementar de conduta do alto escalão, os bolsonaristas repetiram durante os quatro anos, como ventríloquos de um teatro de marionetes, o estupefaciente refrão de que o governo não tem nem admite corrupção. Nota 1.


9. FOCO. O discurso cri-cri praticado durante quatro anos de hostilidades encomendadas através dos proxies de Bolsonaro no Congresso, e diretamente por suas declarações desde a pandemia, desencadeou uma perseguição da imprensa de um modo ofensivo tão estridente que gerou repulsa na sociedade contra ele.

Acreditando que o comando das informações por parte dos grupos organizados pelos filhos desde o Planalto seria suficiente e necessário para manter a supremacia eleitoral, Bolsonaro procurou tirar proveito do confronto com o STF, recebendo de volta uma perseguição constante contra seu grupo que se manteve até os últimos dias do governo.

Nem mesmo o proveito vigente da vitimização pelo arbítrio praticado por alguns juízes contra pessoas de seu grupo foi suficiente para manter a supremacia. Ao contrário, transformou o cotidiano da nação em uma recorrência de insultos, baixarias e vulgaridades como nunca se viu na política nacional. O resultado é que a verdadeira política — aquela em que os problemas do Brasil estavam na ordem do dia —, desapareceu dando lugar a este emaranhado quimérico de superficialidades.

Ficou evidente que o PROPÓSITO de desviar o discurso dos males praticados pela estrutura estatal no Brasil foi amplamente atendido. Pelo acúmulo de bobagens, pela derrota contra o arbítrio devolvido pela fustigação com vara curta, que era um artifício para um levante que lhe colasse no poder permanentemente, não foi alcançado.

Frustrado em seu propósito de um golpe branco, Bolsonaro se refugiou na MÁSCARA de democrata impotente. Em poucos meses passou de imbrochável a paumolescente.


domingo, 30 de outubro de 2022

O pesadelo eleitoral de 22

Carlos U Pozzobon

Se não me engano, foi Tavares Bastos que no século XIX disse que a política brasileira as vezes se parece com uma galeria de estátuas mutiladas. O que se viu este ano não tem precedentes na história da República. A começar com um candidato muito seguro da vitória pela exposição na mídia, com um histórico de cabriolas insultantes tanto a Lula como a Bolsonaro. Me refiro a Marco Antonio Villa, o professor de história mais próximo do surto verborrágico outrora tão valorizado nas tribunas. No passado, se elegeria senador. No presente, não foi eleito. Cito Villa porque percebi que o eleitorado rejeitou todos os candidatos com algum verniz intelectual. E não só na oposição: no Bolsonarismo também. Roberto Motta, engenheiro de formação e especializado em segurança pública, defensor de Bolsonaro no Rio, não se elegeu também. Estava deslocado da métrica obtusa que coleta votos.

José Serra, ex-tudo, não conseguiu o mandato downgrade de deputado federal. O PSDB percorreu a sina do suicídio político a partir de 2014, especialmente com a chegada de Dória, que dando uma rasteira em Andrea Matarazzo, o candidato natural a prefeito em 2016, deixou-o tão humilhado pela falta de apoio da direção do partido que caiu fora amargurado. Dória teve uma ascensão meteórica e acabou sendo traído pela ambição desmedida. Jogou fora a reeleição certa em Sampa, mobilizou o baixo clero do Partido, conquistou a vaga de presidenciável e, por fim, foi traído pela conspiração da gerontocracia que mais uma vez se curvou ao PT, e saiu de cena de mansinho, deixando o PSDB na irrelevância de seu reboquismo. Joyce Hasselman, rompida com o bolsonarismo, migrou para o PSDB mal sabendo que estava entrando em uma casa arrombada: foi descartada.

Simone Tebet protagonizou, juntamente com Ciro Gomes, os maiores fiascos eleitorais. No segundo mandato como senadora, prestes a ser mandada para casa como ocorreu em 2018 com Ana Amélia no RS, Simone esqueceu o que disse de Lula e do PT no primeiro turno e se transformou em cabo eleitoral dele, algo que demonstra que pessoas inteligentes não estão isentas de cometer burrice política, como advertiu Jean-François Revel. Acredita em ganhar um ministério. Mas tudo indica que vai ser uma embriagues passageira que ao fim, ou entra para o PT e pede para que “esqueçam o que eu disse”, ou sai do governo envergonhada como Joyce Hasselman.

As eleições destravaram muitas coisas que não estavam no modo de pensar da ciência política do país. Pazuello foi o segundo deputado com mais votos no Rio de Janeiro sem nunca ter sido político, e com uma exposição midiática tão negativa que qualquer racionalista político diria que não teria votos. Quem elegeu Pazuello? Os evangélicos? Duvido. Eles tem seus próprios pastores candidatos. A resposta deve estar na família militar, numerosa no Rio e uma das mais ativas presenças do bolsonarismo das redes sociais. Antigamente militares eram proibidos de votar. A lógica era de que uma instituição alicerçada na disciplina não poderia sequer mencionar preferências políticas. O populismo se encarregou de liquidar com a lógica.

O terceiro caso de derrota em que os derrotados não conseguiram entender o que se passou ocorreu com o partido Novo. De 12 deputados se reduziu a 3. Felipe D’Ávila teve menos de 600 mil votos. O que aconteceu?

Uma sociedade que vive para o espetáculo, que tem um povo atrelado à cultura do entretenimento, adestrado para o hedonismo como compensação para a vilificação que lhe é imposta na mais desavergonhada descompostura ética pós-petrolão, pode ser sensível a apelos morais?

Muito pouco. Só em alguns nichos se encontra a disposição para conferir dignidade a princípios e prudência em escolhas. O resto foi tudo dominado. E esta dominação é exatamente esta: a política passou a ser um puxadinho da corrupção legalizada no orçamento secreto e financiamento partidário, os dois venenos que danaram a política brasileira sem remissão. Ninguém está preocupado com a moralidade pública quando ela se mostra um obstáculo ao próprio futuro político do candidato. A derrota do Novo confirma que o estoicismo administrativo não produz resultados em uma população niilista.

Os dois grandes polos vitoriosos de um Brasil sem nenhum futuro constituem o petismo e o bolsonarismo. O petismo através da clerezia acadêmica, os sindicatos e organizações sociais de bairros, os índios de fantasia, os quilombolas de batuque e supostos sem-terra, na verdade garimpeiros da propriedade alheia, as ONGs, a parte do funcionalismo gazeteiro, todos escoltados pela tradição intelectual anti-americanista e anti-capitalista latino-americana.

O bolsonarismo ficará enraizado em certas elites do funcionalismo amedrontadas com o bolivarianismo, os evangélicos sempre atentos ao tilintar das moedas que vem com Deus Acima de Tudo, o conservadorismo de rosário e incenso, o estatismo militar, espécie de socialismo no armário que recusando as privatizações não se constrange em vestir a máscara de liberal, incapaz de esboçar uma estratégia de desenvolvimento que não seja a simples ocupação do poder, onde o verde-amarelismo que cerca o presidente demonstrou em 4 anos que não passava de uma elite de aproveitadores, espelhando o petismo e complementando-o no “deixa estar para ver como é que fica”.

Foram estas duas grandes maiorias que se apossaram das redes sociais e se consolidaram nas eleições. Não houve discussão dos problemas nacionais. A preocupação dos candidatos era com o adversário e não com o Brasil. Tudo se passou como se o país estivesse pronto, como as sociais democracias europeias, e restasse apenas questiúnculas secundárias. Em lugar de discutir a cozinha, nossos candidatos se limitaram a falar em como arrumar a mesa do banquete. O angu que vai ser servido é o mesmo de sempre.

Um país que tem 96% do orçamento empenhado em despesas permanentes pode se sentir protegido contra os abutres das verbas públicas se não fosse o caso dos estragos de nosso sistema político ultrapassarem a casa dos 4% restantes. Porque nos 96% estão os abusos, os contratos dos laranjas, as mordomias e privilégios de nossa segregação social organizada que as eleições foram capazes de mostrar que são não apenas intocáveis, como principalmente, intratáveis e inquestionáveis por aqueles que tinham obrigação de se manifestar sobre isso. Não se fala em reformas, não se fala em mudanças, não se fala em desenvolvimento. Tudo o que se pretende e pratica é ocupar o poder e depois distribuí-lo entre os camaradas de jornada.


sexta-feira, 11 de março de 2022

CRETINISMO EM ALTA

Carlos U Pozzobon

Nada pode ser mais nocivo nestes momentos de epidemia e guerra do que o cretinismo intelectual.

Com uma psicologia própria para relativizar a gravidade daquilo que vemos cotidianamente à nossa volta, o cretino nos informa que a OTAN não pode ser inocentada na invasão russa da Ucrânia porque no passado — sempre tem o passado para usar como régua apaziguadora — invadiu a Líbia, bombardeou Montenegro e mais uma penca de países À DISPOSIÇÃO para minimizar o ataque russo. O relativista mal consegue perceber o ridículo em que se mete porque está fortemente escorado na rede de solidariedade que todo o idiota procura para legitimação pessoal de suas ideias.

E consegue: quanto mais idiota, maior é a prática de abaixo-assinados e declarações públicas de solidariedade contra alguém que procura criticar seus disparates. Um idiota nunca está sozinho.

E a União Europeia, então? Que autoridade tem aqueles países de intervirem em um conflito (ainda que sejam os acolhedores dos refugiados) de que eles mesmos participaram nos tempos coloniais?

O cretino tem uma dimensão intelectual de terra arrasada: se um país cometeu um crime, não importa o quanto de (r)evoluções tenha ocorrido, quantos governos diferentes tenha experimentado ao longo de sua história, que a mancha permanece para sempre.

A pobre Bélgica não pode piar por causa do rei Leopoldo. A Inglaterra tem um dívida histórica com a Índia. A França, nem falar, e a Alemanha, que é a maior socorrista da Europa, não é preciso citar a reputação que o cretino na maior cara de pau costuma evocar.

O argumento acusatório não é menos intimidante: se Putin matar um milhão de ucranianos sempre sobrará uma reserva moral para dizer que Hitler matou muito mais, e assim ficamos sabendo mais uma vez que Putin não é tão ruim como a maldita imprensa vem apregoando.

E o assunto não se restringe à guerra. O cretinismo está presente em todas as esferas da vida nacional.

Ainda hoje, justificando o aumento no preço dos combustíveis, uma recorrente autoridade dos emirados cariocas — aqueles que se alternam conforme o sultanato passa do poder da companheirada para o da milicada — disse que o preço da gasolina em outros países é ainda mais alto que no Brasil. Estamos salvos, portanto, de algo muito pior.

Não seria de perguntar à autoridade sultanesca se por acaso esses outros países também colocam 27% de etanol na mistura e ainda possuem parte considerável de seu petróleo extraído do próprio território com custos quase fixos que não representam ¼ do barril no mercado internacional hoje?

Não deveria ser o preço da gasolina uma razão da média aritmética ponderada de todos os fatores de custos? Afinal para que serve o pré-sal se nossos combustíveis estão ancorados no propalado Preço de Paridade Internacional?

É claro que a complexidade aumenta quando se sabe que a Petrobras não refina o que extrai do pré-sal porque suas refinarias estão sucateadas e incapacitadas de destilar nosso tipo de óleo. Mas e daí?

Ela não exporta justamente para equalizar a diferença entre o óleo importado e o próprio? Ou ela exporta apenas para benefício de si mesma? Não cabe nenhuma punição ao seu fracasso em benefício da nação?

Quanto mais se revolver a capa de cretinismo que tomou conta do país, mais difícil acreditar que uma saída eleitoral possa nos redimir da mentalidade distorcida que tomou conta de nossa gente.

Mas essa é a diferença que carregamos com a maldição de Samuel Huntington quando disse que a América Latina não pertence à civilização ocidental. Não pertence, digo eu, porque não pensa como o Ocidente. Vive redemoinhando nas vicissitudes de seu colapso intelectual.

[PS: se alguém deseja conhecer as ideias de Putin (e suspeito que parte do direcionamento de sua fortuna) reverberadas no Brasil, deve ler o artigo do MSIA. Me abstenho de criticar parágrafo por parágrafo o longo artigo. Menciono apenas que ali estão esboçadas as ideias que justificam a Ucrânia ser considerada uma nação composta por organizações nazistas, mais ou menos como se o Brasil fosse invadido e uma analista se dedicasse a explicar nossa estrutura política com as forças atuantes de organizações do crime organizado como o Comando Vermelho, o PCC, as milícias nas capitais e o MST no interior para justificar a invasão. Sabendo o que a Ucrânia passou nas mãos de Stálin no Holodomor e não perceber que os alemães de Hitler pudessem assumir o papel de libertadores, já não é mais uma questão de hipocrisia e cretinice: é delinquência intelectual mesmo.]


A Ucrânia e a Devoção Nazifascista Anglo-americana

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2022

Moro na mira

Carlos U Pozzobon

O manifesto divulgado anteontem de empresários, artistas e intelectuais em apoio a Lula tem um significado que transcende o fator Bolsonaro, embora seja usado para esconder as reais intenções do grupo. O manifesto começa assim:
“Mais do que eleger um presidente, em 2022 o Brasil fará plebiscito entre continuar o desastre ou retomar a estabilidade democrática-institucional, o fim do negacionismo, a volta da empatia social e a retomada de um desenvolvimento sustentável. Não há razão que justifique adiar para o segundo turno, correr o risco das incertezas decorrentes de disputas secundárias, e principalmente os riscos de atos fora da Constituição. Por isso, apelamos a todos os democratas, os candidatos e seus eleitores, para que nos unamos no primeiro turno a Luiz Inácio Lula da Silva.”

A afirmação de que “não há razão que justifique adiar para o segundo turno” a disputa eleitoral só pode ser uma tolice. Como o intervalo entre o primeiro e o segundo turno poderá causar “riscos de atos fora da Constituição”, se estes atos ocorrem cotidianamente? A violação diária da Constituição tem se tornado tão banal que evidentemente o texto sugere que se criaria um estado de anarquia. Neste caso, se trata de um erro crasso. Em todo o mundo a anarquia sucede as eleições e não as precede.

Mas será que estes empresários, políticos e intelectuais esqueceram dos black blocs quebrando tudo o que encontravam pela frente? Será que esqueceram as invasões de terra ao arbítrio de bandidos ligados ao PT? De ocupação de escolas e universidades?


A pista para saber o que está acontecendo nos bastidores foi dada por Aloysio Nunes Ferreira, um dos artífices da articulação da candidatura “Lula em Primeiro Turno”. E a razão cristalina não poderia ser outra: a ameaça não é Bolsonaro, usado como bode expiatório, mas Sérgio Moro, o homem que segundo Aloysio “é um juiz de primeira instância que teve alguma conduta na justiça altamente contestada não só com teor das sentenças que proferiu, mas também em razão do fato de ter se aproveitado do poder judiciário, em aliança com uma facção do Ministério Público, para fazer política e galgar postos de poder político. Fora isso, não tem mais nada que o credencie para ser presidente da República do Brasil. O que ele tem? O fato de ser juiz? [...] Porque ele se distingue? Porque realmente conseguiu um grande apoio da mídia e soube cultivar, aproveitar e fazer crescer, mas que agora vai se desvanecendo”.

Ou seja, as sentenças de Moro “altamente contestadas” são mais nocivas ao país que a governança do PT. Comprova que realmente o PSDB, através de Alckmin e Aloysio, se transformou num puxadinho do PT e o maior temor é a figura apolínea de Sérgio Moro, um homem que pretende restabelecer a dignidade que o Brasil viveu no período da Lava Jato — um curto período que haverá de ficar na história do Brasil como um momento em que a corrupção foi confrontada e condenada pela avalanche das ruas e a integridade de um setor do judiciário — e que a canalhocracia política se une para acabar de todas as formas, começando com a perseguição do TCU e agora a aliança com Lula, este homem que o manifesto afirma ser a personificação da “volta da empatia”.

O leitor não precisa ser um especialista em Brasil para entender que a corrupção generalizada funciona como um consórcio para que tudo seja abafado com toneladas de salamaleques, homenagens recíprocas, distribuições de honrarias, banquetes e celebrações de aniversários, títulos honoris causa emanados do entusiasmo desmedido que causa uma mala de dinheiro ou conta bancária em paraíso fiscal, garantida sempre por aqueles princípios recorrentes das autoridades judiciárias de que “ninguém pode ser condenado sem o devido processo legal”, que nunca se sabe quando vai aparecer, a menos daqueles que por acaso caíram nas mãos de Moro que teve a audácia de não se fazer de dissimulado.

Realmente, o manifesto seria preocupante, se não fosse a singular situação em que nos encontramos, com os partidos políticos em estado tal de decomposição que sequer são necessários para eleger um presidente. Isto não diminui as dificuldades de Moro, exatamente porque deste pântano partidário nasceu o fundo eleitoral e o orçamento secreto, os dois maiores inimigos da democracia, exatamente naquele parágrafo da constituição que diz ser a atividade eleitoral franqueada a todos os cidadãos. Como um cidadão comum poderá ombrear outro que recebeu alguns milhões para subornar eleitores é a grande preocupação das eleições deste ano. Pelo menos a garantia de que a casa não se renova. Novamente, a corrupção se uniu em consórcio para refinar uma autocracia à brasileira. Esta é a dificuldade e não manifestos de apoio a Lula.


quinta-feira, 10 de fevereiro de 2022

Quando a torpeza vira deboche

Carlos U Pozzobon


Se você acha que só nosso Congresso elege políticos verdadeiramente energúmenos, não sabe o que se passa no resto das casas legislativas do mundo. Nos EUA, ainda a maior potência mundial, tem representantes que parecem ter saído de uma periferia dominada pelas milícias, como é o caso de uma congressista republicana da Georgia, chamada Marjorie Taylor Greene, já conhecida da imprensa como porta-voz de teorias conspiratórias, que assim se referiu às investigações lançadas pelo Congresso contra a tentativa de invasão pelos fanáticos trumpistas em 6 de janeiro de 2021:
“Não temos apenas a prisão DC (District of Columbia, a sede do governo), mas agora nós temos a polícia gaspacho de Nancy Pelosi, espionando os membros do Congresso, espionando o trabalho legislativo que fizemos, espionando os funcionários e os cidadãos americanos que frequentam esta casa para falar com seus representantes”, disse Marjorie.

Reproduzo aqui a reportagem do “The Times of Israel” (10-2-22). As reações não poderiam ser em outro tom que o da galhofa: “nossa equipe está de olho no GOP (o partido republicano) da sopa às nozes”, disse Sarah Longwell, fundadora de um grupo republicano no Twitter com o propósito de expulsar do partido os acólitos de Donald Trump. No caso, “da sopa às nozes” era um trocadilho intraduzível, já que nuts (nozes) é também doido varrido.

Imediatamente seguiu-se a adesão de mais alguns judeus liberais com a artilharia da ironia: “Aderi a ela na luta contra tanto a polícia Gaspacho como seus aliados colaboracionistas na Vichyssoise”, disse Akiva Cohen, fazendo mais um trocadilho entre o regime colaboracionista francês de Vichy com o nome de uma sopa fria da região.

“São coisas que a polícia gaspacho faria no caldo!” disse Eric Muller, um scholar do Holocausto na Universidade da Carolina do Norte, “na câmara de tortilla deles”.

Um outro influencer verificou que a deputada Marjorie provavelmente quisesse se referir a outra coisa: “ela pensa que Pelosi é uma sopa Nazi”. Outros expressaram suas preocupações de que ela pudesse confundir o sistema prisional soviético chamado “gulag” com “goulash” um picadinho de carne de origem húngara.

Marjorie Taylor Greene já era conhecida da imprensa por um episódio ocorrido em 2018 quando afirmou que a família Rothschild tinha lançado raios lasers desde o espaço para provocar incêndio nas matas da Califórnia. Ela é uma aderente devota das teorias da conspiração e promovia as ideias do grupo de extrema-direita QAnon em apoio a Trump.

Mentes lúcidas também cometem gafes, como foi o caso de Kim Kataguiri, que provocado sobre a legalidade de um partido nazista no Brasil, afirmou que se tal ocorresse serviria para que se combatessem as ideias nazistas no âmbito democrático. Kim é um dos maiores talentos políticos que conheço, mas sua gafe merece ser desculpada, já que é um erro explicável e não uma confusão mental. O banimento do nazismo não se enquadra apenas na necessidade de sobrevivência da democracia que, neste caso, também deveria incluir os partidos comunistas e pró-bolivarianos, mas no fato de que o nazismo é assumidamente racista, supremacista, homofóbico e, principalmente, genocida. Isto não impede que tenha surgido regimes com a mesma inspiração que, desde a Segunda Guerra Mundial, apareceram na África, Oriente e América Latina. E continuam a se proliferar com seus próprios nomes.

O nazismo DEVE ser objeto de estudos acadêmicos, justamente para que as elites políticas não se deixem iludir com as dissimulações proteiformes que usualmente façam renascer os velhos pesadelos com novos nomes. Embora a história tenha mostrado que alertas, em geral, não são suficientes para frear a avalanche. Isto é diferente de conferir status legal. O Marquês de Sade também deve ser objeto de estudos da psicologia, mas nem por isso o sadismo merece qualquer amparo, embora se saiba que existem mais sádicos que nazistas no mundo. Quando não são os mesmos.


quarta-feira, 24 de novembro de 2021

Tecnologias emergentes para desfrutar em 2022

Carlos U Pozzobon

The Economist 8/11/21


O desenvolvimento e distribuição surpreendentemente rápidos das vacinas contra o coronavírus tem lembrado o poder da ciência e da tecnologia para mudar o mundo. Embora as vacinas baseadas na nova tecnologia de mRNA pareçam ter sido criadas quase que instantaneamente, na verdade elas se basearam em décadas de pesquisas que remontam à década de 1970. Como diz o ditado na indústria de tecnologia, leva anos para criar um sucesso da noite para o dia. Então, o que mais pode estar prestes a ganhar destaque? Aqui estão 22 tecnologias emergentes que valem a pena assistir em 2022.


Geoengenharia solar

Parece infantilmente simples. Se o mundo está ficando muito quente, por que não oferecer um pouco de sombra? A poeira e as cinzas lançadas na atmosfera superior pelos vulcões são conhecidas por terem um efeito de resfriamento: a erupção do Monte Pinatubo em 1991 resfriou a Terra em até 0,5 ° C por quatro anos. A geoengenharia solar, também conhecida como gerenciamento de radiação solar, faria a mesma coisa deliberadamente.

Isso é extremamente controverso. Isso funcionaria? Como as chuvas e os padrões climáticos seriam afetados? E isso não prejudicaria os esforços para reduzir as emissões de gases de efeito estufa? Os esforços para testar a ideia enfrentam forte oposição de políticos e ativistas. Em 2022, no entanto, um grupo da Universidade de Harvard espera conduzir um experimento muito adiado chamado SCoPEX. Trata-se de lançar um balão na estratosfera, com o objetivo de liberar 2kg de material (provavelmente carbonato de cálcio), e então medir como ele se dissipa, reage e espalha a energia solar.

Os proponentes argumentam que é importante entender a técnica, caso seja necessário mais tempo para cortar emissões. O grupo de Harvard estabeleceu um painel consultivo independente para considerar as ramificações morais e políticas. Quer o teste vá em frente ou não, espere polêmica.


Aviões movidos a hidrogênio

Transporte rodoviário eletrificado é uma coisa. Aeronaves são outra questão. As baterias só podem alimentar aeronaves pequenas para voos curtos. Mas será que a eletricidade das células de combustível de hidrogênio, que excretam apenas água, pode resolver o problema? Os aviões de passageiros que serão testados com células de combustível de hidrogênio em 2022 incluem um avião de dois lugares que está sendo construído na Universidade de Tecnologia de Delft, na Holanda. ZeroAvia, com sede na Califórnia, planeja concluir os testes de uma aeronave de 20 lugares e pretende ter seu sistema de propulsão a hidrogênio pronto para a certificação até o final do ano. A Universal Hydrogen, também da Califórnia, espera que seu avião de 40 lugares decole em setembro de 2022.


Captura direta de ar

O dióxido de carbono na atmosfera causa o aquecimento global. Então, por que não sugá-lo usando máquinas? Várias startups estão buscando a captura direta de ar (DAC), uma tecnologia que faz exatamente isso. Em 2022, a Carbon Engineering, uma empresa canadense, começará a construir a maior instalação DAC do mundo no Texas, capaz de capturar 1 milhão de toneladas de CO2 por ano. A ClimeWorks, uma empresa suíça, abriu uma fábrica DAC na Islândia em 2021, que enterra o CO2 capturado na forma mineral a uma taxa de 4.000 toneladas por ano. A Global Thermostat, empresa americana, possui duas plantas-piloto. O DAC pode ser vital na luta contra as mudanças climáticas. A corrida começou para reduzir os custos e aumentar a tecnologia.


Agricultura vertical

Um novo tipo de agricultura está crescendo. Fazendas verticais cultivam plantas em bandejas empilhadas em um ambiente fechado e controlado. A iluminação LED eficiente tornou o processo mais barato, embora os custos de energia continuem sendo um fardo. Fazendas verticais podem ser localizadas próximas aos clientes, reduzindo custos de transporte e emissões. O uso de água é minimizado e os insetos são mantidos do lado de fora, de forma que nenhum pesticida é necessário.

Na Grã-Bretanha, a Jones Food Company abrirá a maior fazenda vertical do mundo, com 13.750 metros quadrados, em 2022. A AeroFarms, uma empresa americana, abrirá sua maior fazenda vertical, em Daneville, Virgínia. Outras empresas também estarão se expandindo. A Nordic Harvest ampliará suas instalações nos arredores de Copenhague e construirá uma nova em Estocolmo. Plenty, com sede na Califórnia, vai abrir uma nova fazenda coberta perto de Los Angeles. As fazendas verticais cultivam principalmente verduras e ervas de alto valor, mas algumas estão se aventurando em tomates, pimentões e frutas vermelhas. O desafio agora é fazer com que a economia também cresça.


Navios porta-contêineres com velas

Os navios produzem 3% das emissões de gases de efeito estufa. A queima de combustível marítimo, uma lama suja de diesel, também contribui para a chuva ácida. Nada disso foi um problema na era da vela - é por isso que as velas estão voltando, em forma de alta tecnologia, para cortar custos e emissões.

Em 2022, a Michelin da França equipará um cargueiro com uma vela inflável que deverá reduzir o consumo de combustível em 20%. A MOL, uma empresa de navegação japonesa, planeja colocar uma vela rígida telescópica em um navio em agosto de 2022. A Naos Design, da Itália, espera equipar oito navios com suas “velas de asa” duras articuláveis e dobráveis. Outras abordagens incluem pipas, “asas de sucção” que abrigam ventiladores e cilindros giratórios gigantes chamados de rotores de Flettner. Até o final de 2022, o número de grandes navios cargueiros com algum tipo de vela terá quadruplicado para 40, de acordo com a International Windship Association. Se a União Europeia incluir o transporte marítimo em seu esquema de comércio de carbono em 2022, conforme planejado, isso dará a essas tecnologias incomuns um novo impulso.


Vacinas para HIV e malária

O sucesso impressionante das vacinas contra o coronavírus baseadas no RNA mensageiro (mRNA) anuncia uma era de ouro no desenvolvimento de vacinas. A Moderna está desenvolvendo uma vacina contra o HIV baseada na mesma tecnologia de mRNA usada em sua vacina de coronavírus altamente eficaz. Ela entrou em testes clínicos em estágio inicial em 2021 e os resultados preliminares são esperados em 2022. A BioNTech, desenvolvedora conjunta da vacina de coronavírus Pfizer-BioNTech, está trabalhando em uma vacina de mRNA para malária, com testes clínicos previstos para começar em 2022. As vacinas de mRNA para HIV e malária, desenvolvidas na Universidade de Oxford, também são promissoras.


Implantes ósseos impressos em 3D

Durante anos, os pesquisadores desenvolveram técnicas para criar órgãos artificiais usando impressão 3D de materiais biológicos. O objetivo final é tirar algumas células de um paciente e criar órgãos totalmente funcionais para transplantes, eliminando as longas filas de espera, os testes de correspondência e o risco de rejeição.

Esse objetivo ainda está um pouco distante para os órgãos carnais. Mas os ossos são menos complicados. Duas startups, Particle3D e ADAM, esperam ter ossos impressos em 3D disponíveis para implantação humana em 2022. Ambas as empresas usam minerais à base de cálcio para imprimir seus ossos, que são feitos sob medida com base em tomografias computadorizadas de pacientes. Os ensaios da Particle3D em porcos e camundongos descobriram que a medula óssea e os vasos sanguíneos cresceram em seus implantes em oito semanas. A ADAM afirma que seus implantes impressos em 3D estimulam o crescimento ósseo natural e se biodegradam gradualmente, sendo eventualmente substituídos pelo tecido ósseo do paciente. Se tudo correr bem, os pesquisadores dizem que os vasos sanguíneos impressos em 3D e as válvulas cardíacas são os próximos.


Táxis elétricos voadores

Há muito vistos como uma fantasia, táxis voadores ou aeronaves elétricas de decolagem e aterrissagem vertical (eVTOL), como a indústria incipiente os chama, estão ficando sérios. Várias empresas ao redor do mundo intensificarão os voos de teste em 2022 com o objetivo de obter a certificação de suas aeronaves para uso comercial nos próximos dois anos. A Joby Aviation, com sede na Califórnia, planeja construir mais de uma dúzia de seus veículos de cinco lugares, com alcance de 150 milhas. A Volocopter da Alemanha tem como objetivo fornecer um serviço de táxi aéreo nas Olimpíadas de 2024 em Paris. Outros concorrentes incluem eHang, Lilium e Vertical Aerospace. Fique de olho nos céus.


Drones de entrega

Eles estão demorando mais do que o esperado para decolar. Mas as novas regras, que entraram em vigor em 2021, ajudarão as entregas via drones ganhar altitude em 2022. Manna, uma startup irlandesa que entrega livros, refeições e remédios no Condado de Galway, planeja expandir seus serviços na Irlanda e na Grã-Bretanha. A Wing, uma empresa irmã do Google, tem feito entregas de teste na América, Austrália e Finlândia e expandirá seu serviço de entrega de shopping para casa, lançado no final de 2021. A Dronamics, uma startup búlgara, começará a usar drones alados para transportar cargas entre 39 aeroportos europeus. A questão é: o ritmo das entregas via drones aumentará ou diminuirá?


Aeronave supersônica mais silenciosa

Por meio século, os cientistas se perguntaram se as mudanças no formato de uma aeronave supersônica poderiam reduzir a intensidade de seu estrondo sônico. Só recentemente os computadores se tornaram poderosos o suficiente para executar as simulações necessárias para colocar em prática essas teorias de redução de ruído.

Em 2022, o X-59 QueSST (abreviação de "Quiet Supersonic Technology") da NASA fará seu primeiro vôo de teste. Crucialmente, esse teste será realizado em terra - especificamente, na Base Aérea de Edwards na Califórnia. O Concorde, o primeiro e único avião comercial supersônico do mundo, não tinha permissão para viajar mais rápido do que o som ao voar sobre partes da terra. Espera-se que o estrondo sônico do X-59 seja apenas um oitavo do volume do Concorde. Com 75 uma sensação de decibéis, será equivalente a uma tempestade distante - mais do que um "baque" sônico. Se funcionar, a NASA espera que os reguladores possam suspender a proibição de voos supersônicos por terra, inaugurando uma nova era para voos comerciais.


Casas impressas em 3D

Os arquitetos costumam usar a impressão 3D para criar modelos em escala de edifícios. Mas a tecnologia pode ser ampliada e usada para construir a coisa real. Os materiais são esguichados de um bico como uma espuma que então endurece. Camada por camada, uma casa é impressa - seja no local ou como várias peças em uma fábrica que são transportadas e montadas.

Em 2022, a Mighty Buildings, com sede na Califórnia, concluirá o desenvolvimento de 15 casas ecológicas impressas em 3D no Rancho Mirage. E a ICON, com sede no Texas, planeja começar a construir uma comunidade de 100 casas impressas em 3D perto de Austin, o que seria o maior empreendimento desse tipo.


Tecnologia do sono

Tornou-se uma mania no Vale do Silício. Não contentes em maximizar sua produtividade e desempenho durante as horas de vigília, os geeks agora estão otimizando seu sono também, usando uma variedade de tecnologias. Isso inclui anéis e bandanas que registram e rastreiam a qualidade do sono, aparelhos de som suaves, dispositivos para aquecer e resfriar colchões e despertadores inteligentes para acordá-lo no momento perfeito. O Google lançou um tablete de criado-mudo que monitora o sono em 2021, e a Amazon deve fazer o mesmo em 2022. Parece loucura. Mas a falta de sono está associada a doenças que vão de doenças cardíacas à obesidade. E o que o Vale do Silício faz hoje, todo mundo geralmente acaba fazendo amanhã.


Nutrição personalizada

As dietas não funcionam. Estão crescendo as evidências de que o metabolismo de cada pessoa é único e as escolhas alimentares também devem ser. Aí entra a nutrição personalizada: aplicativos que dizem o que comer e quando, usando algoritmos de aprendizagem de máquina, testes de seu sangue e microbioma intestinal, dados sobre fatores de estilo de vida, como exercícios e rastreamento em tempo real dos níveis de açúcar no sangue usando dispositivos fixados à pele do tamanho de uma moeda. Depois de lançamentos bem-sucedidos na América, as empresas de nutrição personalizada estão de olho em outros mercados em 2022. Algumas também buscarão a aprovação regulamentar como tratamentos para doenças tipo diabetes e enxaqueca.


Rastreadores de saúde portáteis

Consultas médicas remotas tornaram-se comuns. Isso poderia transformar as perspectivas de rastreadores de saúde wearables, como o Fitbit ou o Apple Watch. Atualmente, eles são usados principalmente como rastreadores de condicionamento físico, medidas de passos dados, velocidades de corrida e natação, batimentos cardíacos durante os treinos e assim por diante. Mas a linha entre o consumidor e o uso médico de tais dispositivos agora está ficando confusa, dizem analistas da consultoria Gartner.

Os relógios inteligentes já podem medir a oxigenação do sangue, realizar ECGs e detectar a fibrilação atrial. A próxima versão do Apple Watch, prevista para 2022, pode incluir novos sensores capazes de medir os níveis de glicose e álcool no sangue, junto com a pressão arterial e a temperatura corporal. A Rockley Photonics, empresa fornecedora da tecnologia de sensores, chama seu sistema de “clínica do pulso”. A aprovação regulatória para tais funções pode demorar um pouco, mas enquanto isso os médicos, não apenas os usuários, estarão prestando mais atenção aos dados dos wearables.


Influenciadores virtuais

Ao contrário de um influenciador humano, um influenciador virtual nunca se atrasará para uma sessão de fotos, se embebedará em uma festa ou envelhecerá. Isso porque influenciadores virtuais são personagens gerados por computador que plugam produtos no Instagram, Facebook e TikTok.

A mais conhecida é Miquela Sousa, ou “Lil Miquela”, uma fictícia brasileira-americana de 19 anos com 3 milhões de seguidores no Instagram. Com US $ 15 bilhões previstos para serem gastos no marketing de influenciadores em 2022, os influenciadores virtuais estão proliferando. Aya Stellar - um viajante interestelar criado pela Cosmiq Universe, uma agência de marketing - pousará na Terra em fevereiro. Ela já lançou uma música no YouTube.


Interfaces cerebrais

Em abril de 2021, o irreprimível empresário Elon Musk tuitou com entusiasmo que um macaco estava “literalmente jogando videogame telepaticamente usando um chip cerebral”. Sua empresa, a Neuralink, implantou dois minúsculos conjuntos de eletrodos no cérebro do macaco. Os sinais desses eletrodos, transmitidos sem fio e depois decodificados por um computador próximo, permitiram ao macaco mover a raquete na tela em um jogo de Pong usando apenas o pensamento.

Em 2022, a Neuralink espera testar seu dispositivo em humanos, para permitir que pessoas paralisadas operem um computador. Outra empresa, a Synchron, já recebeu aprovação dos reguladores americanos para iniciar os testes em humanos de um dispositivo semelhante. Sua prótese neural “minimamente invasiva” é inserida no cérebro por meio de vasos sanguíneos no pescoço. Além de ajudar pessoas com paralisia, o Synchron também está procurando outros usos, como diagnóstico e tratamento de doenças do sistema nervoso, incluindo epilepsia, depressão e hipertensão.


Carne e Peixe Artificiais

Winston Churchill uma vez refletiu sobre “o absurdo de criar um frango inteiro para comer o peito ou a asa”. Quase um século depois, cerca de 70 empresas estão “cultivando” carnes em biorreatores. Células retiradas de animais, sem prejudicá-los, são nutridas em sopas ricas em proteínas, açúcares, gorduras, vitaminas e minerais. Em 2020, a Eat Just, startup de carne artificial com sede em San Francisco, tornou-se a primeira empresa certificada a vender seus produtos, em Cingapura.

Espera-se que várias outras empresas se juntem a ela em 2022. No próximo ano, uma startup israelense, a SuperMeat, espera obter a aprovação para as vendas comerciais de hambúrgueres de frango cultivados por US $ 10 cada - abaixo dos US $ 2.500 em 2018, disse a empresa. Finless Foods, com sede na Califórnia, espera obter aprovação para vender atum rabilho cultivado por US $ 440 o quilo - abaixo dos US $ 660.000 em 2017. Bacon, peru e outras carnes cultivadas estão em preparação. Os amantes de carne com consciência ecológica logo poderão ter seu bife - e comê-lo.

Pelos correspondentes de ciência e tecnologia do The Economist


sexta-feira, 13 de novembro de 2020

AS SUTILEZAS E FUTILEZAS DO PRESIDENTE

Carlos U Pozzobon


O discurso do dia 10/11/20, apresentado como fala de Bolsonaro sobre a retomada do turismo, vale a pena ser analisado porque representa uma amostra de seu governo e de sua personalidade.

Em primeiro lugar, é a expressão sincera do candidato Bolsonaro. Em segundo lugar, porque é um discurso de plenário do Congresso e não de um chefe do executivo. Este tem sido o problema principal desde a posse.

Nos 19:17 min do discurso (link abaixo) ele abordou as seguintes situações:

0:39 seg: a situação das taxas de cobrança para turismo na ilha de Fernando de Noronha. Uma taxa estadual de diária de estadia e UMA TAXA FEDERAL para utilização da praia de R$110,00. Quando se pensa que o assunto é mera questão de uma portaria do ministro, ele fala que a eliminação da taxa depende do parlamento. Se ele acha que não pode eliminar por simples portaria do ministro do Meio Ambiente, a obrigação é de enfrentar o parlamento e não ficar se queixando como se fosse alguma coisa intransponível. E que tipo de enfrentamento ele poderia fazer? Primeiro, encaminhando via liderança a proposta para revogação. Ou, segundo, mandando Ricardo Salles assinar a portaria para causar repercussão e obrigar a sociedade política a se manifestar, como se espera do papel do presidente de colocar o parlamento contra a parede. Alguém duvida que a maioria do parlamento vai apoiar uma taxa que bloqueia o uso de praia num esfola turista ultrajante?

2:33 mim: ele passa para a questão do Jet Ski. Novamente o diagnóstico é certo, mas e a ação? A habilitação para dirigir um Jet Ski se tornou um emaranhado burocrático a partir do momento em que um atropelamento matou um banhista em alguma praia do país. Em vez de mandar a Marinha (ou qualquer auxiliar de gabinete) desfazer esta desfaçatez, promete resolver o problema no ano que vem. É patético.

4:12 min: trata do caso que vem falando desde o início do mandato. A exploração do turismo na baía de Angra. Em viagem internacional recebeu proposta de investimento de U$ 1 bi para transformar Angra numa réplica de Cancún. Para viabilizar o empreendimento afirma que seria necessária a revogação de um decreto. E quem revoga? O Congresso. E qual a iniciativa do governo de provocar o Congresso com ação? A descoberta de que não tem CLIMA no Congresso. Ele prefere render-se à parolagem.

6:39 min. aproveita o discurso para falar do cartão corporativo da presidência. Fiquemos sabendo que são 3. O dele, não gasta nada. Nem para comprar cerveja, podendo gastar 29 mil por mês. Seu exemplo tem o papel de exaltar a edificante mensagem de uma cerveja ser bebida como despesa de um cartão e não de outro.

7:38 min: a morte de pássaros inviabilizou o uso de torres de energia eólica em Fernando de Noronha. Este assunto venho comentando desde os tempos da Dilma. No entanto, ele está certo. É um absurdo a alternativa usada através de um gerador termoelétrico, que sequer cumpre as necessidades das pousadas da ilha. Mais uma boa briga para ganhar popularidade enfrentando a irracionalidade ambiental. Novamente a Marinha poderia entrar na briga. Mas nada acontece além dos resmungos de um candidato, lamentando a oposição ambientalista como se fosse imexível.

A partir do oitavo minuto sucede uma miscelânea de comentários fora do meio ambiente, como o enfrentamento da Covid, com o argumento repetido pelo bolsonarismo midiático com salivante prazer mórbido de duas ou três prisões por guardas municipais (!) de pessoas que desrespeitaram o isolamento social, atrocidade essa que qualifica bem seus inimigos políticos como um calamitoso perigo de volta da esquerda, principalmente quando se observa a situação na Argentina, etc.

13:16 min: por fim, a solução (?) consiste na sociedade apoiar o governo para imprimir as mudanças necessárias. Contesta o discurso de ódio, dizendo que é coisa de marica. Fala da inevitabilidade da morte e novamente da ameaça que nos cerca, agora também da Bolívia. Chega ao fim insistindo não existir outro líder em 2 anos capaz de assumir os problemas do país, a menos que entre muita grana, exceto naturalmente ele, que não soube como enfrentar os problemas brasileiros nos primeiros dois anos, mas garante que é o homem providencial para retornar ao poder nos próximos dois anos seguintes. Em tom eloquente confessa que passou 28 anos no Congresso pensando em ter a oportunidade de mudar o Brasil. E termina a peroração pedindo para ser ajudado. Não se sabe que tipo de ajuda, além do voto, ele se refere ao comum dos mortais.

Discurso de 10/11/20


terça-feira, 29 de setembro de 2020

Por que o Rio ruiu

Carlos U Pozzobon

Do blogue Vespeiro
Meu comentário segue abaixo.

O Rio é o Brasil de amanhã?

Felizmente não…

Quando penso no Rio de Janeiro a imagem que vem-me à cabeça é sempre a de uma criança inocente violentamente abusada pelo pai. O tipo de coisa que deixa marcas que só muita, mas muita “análise” mesmo, pode levar a uma superação.

Pela primeira e única vez na História uma colônia, virgenzinha ainda, sediou uma capital de império. Foi talvez a corte mais decadente da Europa, a de um dos últimos monarcas absolutistas, que desembarcou na futura Cidade Maravilhosa. 15 mil encostados de um homenzinho balofo, filho de uma louca, Maria I, que tornou-se rei depois que o primogênito d. Jose morreu e a mãe foi declarada incapaz, que fugiram correndo para cá com tudo quanto puderam carregar quando seu povo mais precisava deles na véspera da invasão de Portugal pelas tropas de Napoleão. Foi essa “a malta” que, em 1808, desembarcou no cais do Valongo de um Rio que era ainda uma aldeia linda, chutando as pessoas para fora de suas casas, confiscando, violentando, corrompendo…

A corte de d. João VI roubou ao Brasil o século 19 das revoluções democráticas. Capital desde 1763, já se reformulara de porto de contato com o mundo de seu tempo em cobrador de impostos que ia bem quando o resto do Brasil ia mal … e vice-versa. Foi esse o alvo da Inconfidência Mineira, a derradeira despedida do Brasil da modernidade política.

A partir de 1808 passa a ser, ele próprio, a metrópole que explorava a colônia. Uma vez instalada aqui, saiu sua majestade vendendo títulos de nobreza a traficantes de escravos e funções do Estado a quem pagasse para explorá-las. Foi com a revolução americana que Tiradentes sonhou mas foi como a sede da corte, da corrupção, do funcionalismo e das estatais que o Rio de Janeiro acordou e evoluiu para a vida real. O balneário de todos os ladrões de sucesso de todos os governos do Brasil. A maior porcentagem de encostados com emprego e sem trabalho. A capital da jogatina de Bêjo Vargas. O paraíso dos aposentados aos cinquenta anos de idade. A pátria da “malandragem” onde trabalho sempre foi “coisa de otário”, “mané” é o ladrão que vai preso e “malandro” o que não se deixa pegar.

E tudo isso potencializado pela memória da escravidão dependurada dos morros.

De repente, juntando Witzel com Bolsonaro, saem os jornalões com uma semana de análises sobre porque o Rio ruiu. Mas quando Bolsonaro entra pela porta de uma redação a racionalidade sai pela janela…

A passagem da capital, com Juscelino, nunca foi a causa do desastre carioca. Foi só mais uma “co-morbidade”. O governo se foi mas a elite do funcionalismo ficou. Chagas Freitas, o único governador do MDB de sua época, apoiava os militares que o partido “combatia”. Brizola foi o primeiro a proibir a subida da polícia aos morros que o STF reedita agora sob o tonitruante silêncio dos jornalões.

O crime organizado sempre elegeu representantes nos legislativos cariocas. Condecoram milicianos hoje como é praxe desde os tempos dos Reinados, do Império e da Republica. As milícias só inovaram por eleger os próprios milicianos. O governo federal as protege assim como os reis faziam os seus barões negreiros, o jogo do bicho bancava os governadores antes e depois de 1964 e o PT protegia as Farc e suas versões nacionais que só davam acesso aos cabos eleitorais do lulismo aos morros. O PSOL, herdeiro da esquerda da esquerda e fenômeno tipicamente carioca, é ostensivamente ligado ao crime “ideologizado”. Sua base-raiz são os presídios de segurança máxima…

Os artistas e os intelectuais “orgânicos” sempre foram um corolário do absolutismo. Nasceram com ele e fizeram-no crescer desde a primeira universidade lá na Bolonha de 1300. Só continuam onde estão, na era do avião, porque Brasília é intragável, menos para quem vive do contato físico com O Poder.

E agora? O que fazer?

A História, a “análise” das sociedades, e somente a História, poderá proporcionar uma remissão. E a do Rio é freudianamente clara. Ele terá de compreender, passo a passo, como foi que se transformou no que é para curar-se. Mas este é um luxo de sociedades ricas.

A solução, portanto, é enriquecer. E muito!

Desanimou?

É mais fácil do que parece. A imprensa – e aí falo dos jornalões aos jornalinhos pretensamente mais aguerridos da internet – finge que não entende, mas é mentira. Qualquer sujeito um grau acima da debilidade mental, não precisa nem ter instrução formal, entende que a instituição do voto distrital puro com recall (vale dizer a expulsão sumária de todo ladrão ou mentiroso pego no pulo), mais referendo e iniciativa de fazer e recusar leis vindas de cima, de modo que o povo é quem passa a dizer o que deve ou não ser discutido e votado, entende o poder fulminante que esse sistema tem contra a corrupção. Onde quer que vigore ele acaba com praticamente 100% da roubalheira. E, num país de dimensões continentais como o Brasil, pode ser implantado nos 26 estados e nos 5570 municípios onde se dá a “ladroagem do cotidiano” bem conhecida de cada um de nós.

Sobra a que se pratica daí para cima, e mesmo assim, sob um nível de fiscalização e poder de decisão dos roubados que torna os ladrões efetivamente tímidos. Com esse sistema aguenta-se até um Donald Trump praticamente sem dor, a não ser para os fanáticos por conversa mole sobre os temas caros à “patrulha ideológica” que custam quantias verdadeiramente risíveis para quem vive sob o tacão de funcionários indemissíveis e seus STF’s de comedores de lagostas com vinhos tetra-campeões por decreto.

A solução para o Rio de Janeiro ver aquelas favelas todas se transformarem em Alfamas e o Brasil sair do brejo passa por aí e não, obviamente, como sabe deus e a torcida do Corinthians, por aumentar o número de candidatos negros e mulheres fabricados em cima da perna na base de injeções de contribuições do Fundo Partidário arrancadas a força de eleitores que nunca ouviram falar neles antes mas acabarão, na hora de votar, por tê-los como únicas opções para mais uma tentativa frustrada de fugir ao cativeiro.


Comentário:

A decadência do Rio segue o rumo da decadência do mundo ocidental. Tem suas peculiaridades. Mas não são exatamente históricas, ainda que a história explique muita coisa. Vou focar um dado constitutivo da cultura brasileira.

1) A docilidade e o servilismo.

2) A brutal diferença entre a vida estoica e a vida epicurista.

1) No primeiro caso considero errado imaginar que nossa docilidade provém das relações patrão-empregado. Muito mais, carregamos na ancestralidade como nação a percepção de que tudo se resolve no compadrismo, no jeitinho e que nada nos impede conseguir burlar o que nos é imposto na relação estado-cidadão porque não passam de exigências para inglês ver. Complementar à docilidade, o servilismo é o modus operandi da corrupção. Se não aceitarmos deixar a coisa rolar, temos inimigos prontos para acabar com nossa reputação. Isto vale para a política, para o funcionário público, para quem quer que seja. A cumplicidade é o único remédio para não ser suspeito.

Já falei neste espaço sobre a indispensável rigidez moral de um povo para alcançar o status de grande nação. Foi o que observei nos americanos de outros tempos, lá atrás na década de oitenta, quando não se tergiversava sobre a moral comum estabelecida pelos “originalistas”. De lá pra cá começou a fazer água porque:

2) O mundo tecnológico levou gradativamente a sociedade a um hedonismo tanto maior quanto mais seguro se encontra o cidadão de seu destino. Riqueza acumulada, estabilidade no emprego, etc. O Rio oferece uma facilidade observacional sem precedentes. O espírito carioca se confunde com o epicurismo como realidade de vida para sua classe média que centrifuga todo o resto.

Com um pouco de SENSIBILIDADE LITERÁRIA, algo raro neste milênio, é possível perceber diferenças, digamos, entre o habitante de Porto Alegre e o de Bento Gonçalves, entre o de Blumenau e o de Florianópolis, e assim por diante Brasil acima. Nas cidades onde o funcionalismo é pequeno, o estoicismo como condição de vida prevalece. O mérito desfrutado pela oportunidade e escolhas pessoais não divide os cidadãos entre privilegiados e excluídos. Não convida à violência. Não marginaliza os cidadãos no cinismo. Não gera ódios entre os escolhidos e os rejeitados ao desfrute estatal. Não existem satiristas em cada esquina porque a vida séria do trabalho repudia o espiralado desdém do futriqueiro de plantão.

Quem se detém na literatura brasileira de todos os tempos, observa que o Rio foi o teatro da inteligência brasileira. Nosso repertório de boas coisas enche um baú de criações de origem carioca. No entanto, a vida inteligente nestes tempos se reduz cada vez mais. Aqueles grandes escritores, cronistas, jornalistas, se reduzem paulatinamente com o avanço da decadência. O que antes era a atenção nacional, hoje se reduz a um punhado de sobreviventes. Quem pode escolhe a saída do Galeão.

Uma cidade que gira em torno de um conglomerado de enclaves ideológicos não é uma cidade. É apenas um campo de batalha em que todos de alguma forma são um partido político e todos convergem para a acomodação com o governo de plantão atual ou do passado. Perdeu-se os ideais. Até os liberais cariocas são diferentes dos paulistas. Este modelo político, para uma cidade essencialmente política que foi o centro de atenção nacional, acabou na triste constatação de um século atrás feita por José Ingenieros:

“A política degrada-se, torna-se profissão. Nos povos sem ideais, os espíritos subalternos crescem à base de intrigas vis de antecâmera. Na maré baixa sobe o que é desprezível e entorpecem-se os traficantes. Toda excelência desaparece eclipsada pela domesticidade. Instaura-se uma moral hostil à firmeza e propícia ao relaxamento. O governo fica nas mãos de gentalha que devora o orçamento. Abaixam-se os muros e alçam-se as esterqueiras. Diminuem-se os louros e multiplicam-se os cardos. Os cortesões convivem com os malandros. Progridem os equilibristas e volteadores. Ninguém pensa, onde todos lucram. Ninguém sonha, onde todos tragam. O que antes era sinal de infâmia ou covardia, torna-se título de astúcia: o que antes matava, agora vivifica, como se houvesse uma aclimatação ao ridículo; sombras envilecidas levantam-se e parecem homens; exibe-se e ostenta-se a improbidade, em vez de ser vergonhosa e pudica. Aquilo que nas pátrias se cobria de vergonha, nos países cobre-se de honras.”

O Homem Medíocre deveria ser relido nesses tempos de impostura. Principalmente pelos cariocas.


quarta-feira, 19 de agosto de 2020

Huawei, a China e a nossa sina asinina

Carlos U Pozzobon


O caso Huawei se trata de uma guerra ideológica ou tecnológica? A Huawei foi a empresa que conseguiu mais capacitação na área telecom nos últimos 30 anos. A empresa é acusada pelos EUA de roubar propriedade industrial desde que se notabilizou. Ao mesmo tempo, tal como as demais empresas asiáticas, ela utiliza diversos chips americanos. Mas a acusação de espionagem permanece em dúvida. Seria uma retaliação dos EUA por estar sendo ano a ano DESAFIADO em tecnologia de ponta? Milhares de chineses estudando em universidades americanas, dezenas de empresas AMERICANAS fabricando produtos na China não seria a causa dos EUA se sentirem encurralados? Com um mercado interno assustador, a China consegue vender mais do que qualquer concorrente, mas IMPEDE que muitos deles tenham seus próprios softwares rodando na China, especialmente quando associados com a liberdade de expressão. Por exemplo, aplicativos de redes sociais, email e busca que operem internacionalmente, como acontece conosco.

O PRIMEIRO grande nó é a situação dos direitos humanos na China. Semanalmente a Freedom House denuncia casos de desaparecimentos de pessoas que publicam conteúdo não adequado ao oficialismo do governo. Quando a China decide comprar uma empresa high-tec, significa que ela não conseguiu copiar ou não tem a matéria prima. Entretanto, o imbróglio é mais abrangente. Se o governo americano sanciona uma empresa, as demais empresas americanas ficam proibidas de fornecer seus produtos que compõem a sesta básica da empresa sancionada. Assim, se uma empresa chinesa utiliza um software americano para projetar seus próprios chips, ela é obrigada a interromper a produção. É o que está acontecendo com os celulares Huawei que funcionam com o Android do Google que entrou na lista dos sancionados. Em resposta, a Huawei está desenvolvendo seu próprio sistema operacional para celulares. Podemos ficar certo que muita coisa vai ser copiada do Android. E neste caso, abre-se mais uma frente de batalha: quem estaria perdendo? Os EUA ou a China? Não há uma resposta objetiva.

Por sua vez, no Brasil a Claro já começou a instalar a 5G em alguns bairros de São Paulo e Rio com tecnologia da Ericsson. A 5G da Claro dá um salto de 30 Mb/s para 414 Mb/s reutilizando as mesmas frequências da 4G. Ocorre que o espectro é dividido entre assinantes, e por isso tende a se congestionar já que um único celular 5G ocupa a faixa de 12 4G. Quando ocorre a saturação do espectro, não adianta o consumidor ter um aparelho rápido se a rede é lenta.

A solução consiste em adquirir novas frequências que são leiloadas pela ANATEL, que vem postergando devido a reviravolta do caso Huawei. Um celular para funcionar em mais de uma frequência precisa de um chip que reconheça a nova frequência e tenha inteligência de escolher a melhor delas na célula em que se conecta.

Não se trata, portanto, de apenas vender licença. Mas também, existe a obrigação de vender as faixas utilizadas pelos países que já produziram os aparelhos, porque ninguém iria desenvolver chips só para o Brasil.

A Huawei não participa de leilões, que são disputados exclusivamente pelas operadoras. Mas como fornecedora de estações de base, das 86 mil em operação no país, 70 mil utilizam equipamentos da Huawei nas tecnologias precedentes a 5G.

Portanto, tem fundamento a acusação de espionagem feita pelo governo americano? Se o objetivo da espionagem for o de coletar dados de assinantes, a Huawei já está fazendo isso há muito tempo e não precisa da tecnologia 5G para obtê-los.

O governo Bolsonaro tem seguido a recomendação americana, mas está postergando o leilão de frequências devido a dependência do Brasil da China, de resto o mesmo de todo o mundo. A Toyota e a Mercedes-Benz vendem mais automóveis na China que nos respectivos países. O mesmo vale para muitos itens high-tec. Por isso, a cautela com a situação de direitos humanos na China tem sido restrita a comunicados diplomáticos e à imprensa.

Uma sanção contra a Huawei certamente seria acompanhada de retaliações da China em nossas exportações. E para piorar, as operadoras temem que a sanção possa aumentar os custos. A fabricante tem contratos com Claro, Oi, TIM e Vivo. Para estas operadoras, a 5G seria apenas um upgrade na infraestrutura existente.

O governo Trump mexeu num vespeiro que vai longe. Com uma economia totalmente interligada, o que beneficia uma empresa, prejudica-a em outras áreas. É o caso do Google. Perdendo um cliente poderoso como a Huawei na instalação de sistema Android para celulares, sem ganhar nada de retorno, a sanção de Trump também está ferindo interesses americanos.

Apple, Disney, Walmart, Goldman Sachs Group e Morgan Stanley e uma lista longa de outras empresas temem perder mercado se a China revidar à proibição dos aplicativos WeChat e TikTok de rodarem nos EUA. A interligação vai muito longe e não pode ser racionalizada por um ministério como o do comércio americano.


O SEGUNDO grande nó vem do NACIONALISMO. O sentimento nacionalista nos persegue e causa mais danos econômicos ao país do que os privilégios do funcionalismo. Na verdade, funciona como um entrave ao desenvolvimento ou, como já disse alguém, uma opção pela pobreza. Trata-se de uma construção mental própria do estatismo, que funciona como uma patologia social produzindo o medo coletivo da perda irreparável de nossas riquezas. O nacionalismo acredita que os interesses econômicos das empresas estrangeiras são danosos ao país até mesmo antes de aqui se instalarem e comprovarem o dano. Remando contra o nacionalismo, em alguns momentos conseguimos sair fora da esquizofrenia parcialmente, mas a mentalidade não desaparece. Este sentimento politicamente se expressa no petismo e bolsonarismo ampliados. Seus porta-vozes acreditam que se o governo assumir a função via estatais, o interesse nacional está assegurado. Um interesse que está contra a riqueza coletiva só pode ser uma patologia social.

O nacionalismo teme que a China possa dominar o Brasil através de grandes empresas e depois implantar o seu regime comunista. Diariamente alertas desta natureza ocorrem nas redes sociais. Não se entende como a recíproca não é verdadeira: a China é constituída por associação de multinacionais de todo o Ocidente com empresas chinesas na produção para o mercado interno. E ela não se sente ameaçada em sua estrutura monolítica de poder.

O Brasil deveria fazer o mesmo. Bancos com o Banco Asiático de Investimento em Infraestrutura, o Fundo Saudita e diversos outros estão dispostos a investir em projetos de infraestrutura que se mostrem rentáveis. Que prejuízo pode produzir uma empresa investindo, por exemplo, em ferrovias, com capital distribuído entre participantes de todo o mundo? Não só não prejudica como impede nosso desenvolvimento, isto é, reprime lucros. Não aproveitar a oportunidade é um sinal da mentalidade encoscorada do nacionalismo brasileiro, da esquerda à direita.

A prova de que o nacionalismo é uma tolice pode ser comprovada com a participação já existente da China no Brasil, como a usina de Monte Belo e no linhão que vai até Minas Gerais. E em muitas áreas industriais, além de ser nossa principal parceira comercial.

Em conclusão, o nacionalismo do governo só tem um caminho: a postergação até o momento de “cair na real”. Esta é a nossa sina de deixar tudo para depois e, por fim, capitular frente ao óbvio. Sempre com o prejuízo temporal de não ter feito antes, um componente sociológico que não faz parte do discurso de políticos e economistas.


quinta-feira, 11 de junho de 2020

Os fastidiosos antifas

Carlos U Pozzobon


Nossa inigualável capacidade de imitação trouxe ao Brasil um movimento que vem, há alguns anos, sendo o pilar de mobilização de passeatas de protesto nos EUA.

Os antifas anunciam-se defensores de uma liberdade que coloca a luta contra o racismo apontada para a sociedade e não contra os indivíduos racistas. Curiosamente, acreditam que uma ação policial, como a que levou a morte George Floyd, seja um sinal inequívoco de que a sociedade é racista e a única forma de contê-la consiste na revisão histórica de seus atos e nos atores que fizeram essa história.

Olhando para as estátuas que se atrevem a permanecer no pedestal das celebridades passadas, declaram guerra a todos quantos tiveram no passado algum vínculo com a escravidão. E se juntam em grupos enfurecidos para arrancá-las acreditando destruir a lembrança que invocam por ser de louvação demeritória.

Não se trata da crítica histórica, mas de recusar a própria história. Todo o passado humano foi permeado pela escravidão, que não era racial, mas de conquista. A escravidão era tão comum no passado que vai da narrativa de Heródoto a Nabuco, e o fato do primeiro viver nela não desmerece o que fez.

A atitude dos antifas são uma réplica da revolução cultural inaugurada pelo maoismo, quando se perseguiam pessoas com um passado proeminente porque tinham méritos adquiridos no regime que derrubaram, e na agitação sectária voltaram-se para eliminá-las na certeza que livrariam as gerações futuras das influências do passado odioso.

Se o movimento antirracista for organizado para se tornar uma tendência mundial, muita coisa se pode dizer sobre o que virá, e da conhecida experiência de tolerância das instituições com idiotas em passeata, em pouco tempo teremos um tribunal de “escolhidos” para fazer julgamentos históricos e preparar os espíritos para a louvação de personalidades nada condizentes com a atitude ética que se espera de um cidadão.

Os movimentos de rua precisam aumentar urgentemente seus conhecimentos do que sejam a escravidão moderna, que não é mais baseada na cor da pele, mas na forma de inserção do indivíduo na sociedade. Sociedades onde o apartheid social foi imposto como privilégio de uma pequena parte sobre a maioria representa o verdadeiro racismo do século XXI, não fosse as viseiras da ignorância impedirem esses grupos de enxergar a verdade.

Indivíduos de mesma raça ou nacionalidade exploram seus cidadãos de forma pior do que se escravos fossem. E tudo fica por isso mesmo, tapeado pelo dar de ombros para o real. Os haitianos são explorados por pessoas da mesma cor, tanto quanto os brasileiros. Se quiserem se engajar em um movimento antidiscriminatório, esses manifestantes deveriam parar para pensar um pouco mais na organização social e um pouco menos na origem racial dos injustiçados.


segunda-feira, 13 de janeiro de 2020

Energia solar doméstica

Carlos U Pozzobon


A MISTIFICAÇÃO DA ENERGIA SOLAR.

Tenho acompanhado os debates sobre o uso de painéis solares e a cada dia fico mais irritado. Gente com bom nível de conhecimento se deixa enredar por argumentos estúpidos que não fazem o menor sentido para o interesse nacional, entendendo por interesse nacional o bem estar da população. Não poderia ser diferente, o grau de obscuridade que atingiu o país parece ter deixado as cabeças tão dependentes da escuridão que elas repelem qualquer raio de luz. Vamos ao caso.

O uso de painéis solares para abatimento de custos de energia elétrica durante o dia tem sido uma regra mundial em proporções gigantescas, mas o lobby da energia suja prefere esconder-se através de uma falsa problemática tributária para escorchar os contribuintes que investem para diminuir as dependências com os monopólios de distribuição a que estão sujeitos.

O argumento de que o uso de energia solar doméstico representa prejuízo para as distribuidoras não resiste ao questionamento. Se um residente gasta 200 reais por mês em energia e com placas solares sua conta passa para 100 reais, isto significa que a economia de 100 reais é a mesma que ele teria se tivesse:

1) Viajado;
2) Trocado lâmpadas de maior consumo por menor. Quem já substituiu todas as velhas lâmpadas por led fez isso;
3) Aposentasse o velho forno elétrico ao construir uma churrasqueira.
4) Fizesse um corte no excesso de lâmpadas e aparelhos acesos sem necessidade.

Se nestes casos não existe problema, ele deve se situar na outra ponta. Então vamos a ela.

Suponha que você more num local que precisa tomar uma estrada pedagiada para fazer compras, digamos, ir a um supermercado com padaria. Para diminuir as despesas com pedágio, você resolve fazer uma reordenação de seus hábitos domésticos e compra uma máquina de fazer pão, de tal sorte que em vez de ir todo o dia ao supermercado, você termine indo apenas 1 vez por semana. Por acaso a empresa que explora a rodovia teria direito a uma indenização porque você passou a gastar menos pedágio? Ela também tem os mesmos lucros cessantes de uma empresa de energia elétrica.

O que acontece com o sistema elétrico? Uma energia gerada em baixa tensão quando poupada acarreta uma diminuição da geração em alta tensão correspondente. Para a rede distribuidora, é verdade que ela passou a vender menos, mas alguém vai consumir a sua energia e ela pode até usar a nova eletricidade na rede para se acomodar a esta realidade, como por exemplo, ligando novos consumidores ou até mesmo prolongando uma rede que já estava chegando ao ponto de saturação e com isso poupando investimentos de curto prazo.

Se você fizer uma horta de produtos orgânicos (tão em moda nos dias atuais), os supermercados teriam algum direito a indenização porque você passou a consumir suas próprias hortaliças? E se você vender para seu vizinho? Os supermercados iriam pagar um lobby para dizer que você não está recolhendo tributos e se associar ao governo para acabar com sua horta?

Mas afinal quem perde?

No pedágio a concessionária da rodovia; nas hortaliças o produtor e supermercado que você dispensou. Na eletricidade, o distribuidor menos, e o gerador mais. E quem são os geradores? No Brasil, as usinas que trabalham interligadas e utilizam termelétricas para completar a carga consumida que não é gerada nas hidrelétricas e eólicas. Logo, são os proprietários de termelétricas que estão na ponta com a obrigação de reduzir a entrega de energia na rede porque a carga de consumo diminui com a inserção da eletricidade gerada pelos painéis solares.

Portanto, é o lobby das térmicas que está por trás de toda esta polêmica, utilizando para isso o encosto no governo pelo argumento tributário. Surpreende que se fale tanto em energia limpa e na hora que ela começa a se desenhar no consumo do país, o lobby da energia suja seja capaz de imperar na imprensa.

Espero que não vençam. Quando do advento da tecnologia VoIP (voz sobre o protocolo IP), no final dos anos 90, as teles começaram a sabotar todos os aplicativos que surgiam, não permitindo acesso à rede. Eu pessoalmente fui prejudicado e abandonei o setor. Com o tempo, as teles tiveram de aceitar o tráfego devido a pressão dos consumidores e de grandes empresas como Skype e WhatsApp que forçaram os órgãos regulatórios a aceitar o tráfego primeiro de mensagens, e depois de voz e vídeo. Hoje em dia, a imensa maioria de ligações de voz e vídeo são feitas por aplicativos. Os correios abandonaram o telegrama depois do fax e do e-mail, e assim sucessivamente. Deveriam ter recebido uma compensação?

Espero que a tecnologia solar, usada em grande escala em países como Espanha e China, seja amplamente utilizada pelos residentes sem as ameaças mistificatórias do lobby de energia suja. O desconto que as distribuidoras estão pleiteando não vai gerar receita para o governo. Simplesmente, o quilowatt entregue na rede pelos residentes vai ser reduzido quantitativamente, e as distribuidoras vão vender integralmente e embolsar a diferença sob o pretexto de manutenção de rede.


domingo, 10 de novembro de 2019

Genealogia do Caos

Carlos U Pozzobon


A mudança na interpretação da prisão em segunda instância faz parte da acumulação de fatores que permitiram uma virada conjuntural nas práticas legais. Mas o que aconteceu para que chegássemos a este ponto?

Quando a luta pelo impeachment indicava que a pressão popular era a força revigorante da democracia, as coisas começaram a dar para trás. Rastrear a série de eventos que nos levaram à liquidação da Lava Jato permite esclarecer por que caímos na cilada do retrocesso:

O primeiro evento foi a eleição presidencial, que estabeleceu um novo marco pós-PT. A Lava Jato elegeu Bolsonaro com a esperança de que ele tivesse um comportamento público condizente com as forças atuantes nas campanhas anti-PT.

O segundo evento foram as publicações do The Intercept, que serviram de combustível para as forças antilavajatistas se posicionarem na defesa da impunidade elevando o coro do “onde já se viu juiz falar com procurador”, num país em que, justamente, todos os juízes falam com procuradores.

O terceiro evento foi a série de interrupções nos processos judiciais sob a alegação da ordem de apresentação da acusação e defesa de delator e delatado. Entendeu o STF que a formalidade de ordem era mais importante que o trabalho executado, e que, não obstante ter sido apresentado na primeira instância, não poderia ser corrigido pela plêiade de recursos exaustivos e sobrepostos, e tampouco pelo julgamento na segunda instância com base em material desconhecido da defesa, se ela invocasse prejuízo material do delatado. Como se fosse um prejuízo irreparável, arrumou-se a artimanha legal para avançar contra todo o trabalho anticorrupção no país.

O quarto evento foi a insurgência da militância togada com absoluta segurança para destruir a segurança jurídica do país. O caso do COAF se insere neste avanço sobre o executivo que termina aceitando que o principal órgão de investigação de atividades financeiras servisse de peteca de ministérios, a partir da denúncia de irregularidades na declaração do IR de Gilmar Mendes.

O quinto evento foi a pá de cal sobre a erosão em marcha da ordem constitucional. Sob a alegação de necessidade de proteção mútua, Dias Toffoli interrompe as investigações em curso dos processos de uma nominata de mais de cem pessoas agraciadas com a suspensão de investigações do MP para fazê-las reféns da orquestração togada. Na nominata, os nomes da cabala que haveriam de liquidar com tudo o que se conseguira, incluindo Gilmar Mendes e Flávio Bolsonaro.

Na direção oposta, nada disso estaria acontecendo se houvesse resistência do executivo com uma declaração firme de Bolsonaro contra a conspiração em marcha. O Brasil gosta da retórica de “check and balances”, mas na hora do indispensável CONTRAPESO, o que se viu foi um “silêncio eloquente” do Presidente da República, que não sabe o poder que tem, ou não sabe como agir em uma democracia EM CRISE. E não faltam os “justificadores da imobilidade”, as cassandras do “ele está certo” para argumentar que estando uma proposta de reforma da previdência no Congresso, ele deveria se omitir para não melindrar uma reforma calculada para dez anos, que é mais do Congresso do que dele, como se a omissão sempre pudesse ser justificada por uma dependência que só existe para justificar a inépcia.

Se Bolsonaro tivesse convidado Modesto Carvalhosa para uma conversa no Planalto (que nunca o fez), e também figuras do VemPraRua e MBL (que nunca foram apesar de elegê-lo), acompanhados por Alcolumbre e Maia para um piquenique político corriqueiro de falar à toa, como ocorre cotidianamente em Brasília e, como fator surpresa, os colocasse em uma sala fechada para uma conversa com o maior número possível de fardados do Alto Comando do Exército, as coisas poderiam mudar se os militares anunciassem em tom marcial uma declaração de guerra contra a corrupção togada com um ultimato em alto e bom som para que em uma indireta mais direta que direita, exigisse que o Legislativo assumisse o seu papel constitucional de colocar um termo no abuso confuso e difuso da interferência do STF nos demais poderes da República, esperando que pela reação dos parlamentares no momento de inflexão do discurso, eles entendessem que... sim, estariam tratando do pedido de impeachment do convidado octogenário ao lado, ou... as Forças Armadas não se responsabilizariam pelo que poderia ocorrer, incluindo a sobrevivência do próprio parlamento. Blefe? Não há política sem uma dramaticidade conjuntural que a justifique.

Também podemos admitir que o recado fosse dado em tom mais suave. Abstendo-se de qualquer ação, lavando as mãos como Pilatos, o governo Bolsonaro entra no rol daquilo que no jargão do mercado financeiro se chama de “precificado”. A Lava Jato foi precificada. O maior perdedor não foi só a justiça brasileira, mas também o seu ministro. Sérgio Moro não tem mais o que fazer no governo. Pode dar seus esforços por encerrado. E preparar uma reviravolta política lançando-se candidato a presidente em 2022. É o único caminho que lhe resta. E é o que queremos para nos livrar do pesadelo da volta do PT.


quinta-feira, 19 de setembro de 2019

Operações proteiformes

Carlos U Pozzobon


Conta a mitologia que Perseu foi aprisionado por Menelau por ser o deus grego que podia informar o caminho a seguir no mar depois de Menelau se perder em meio ao nevoeiro e atracar seu navio na ilha de Pharos. Perseu era um deus das profundezas, encarregado de cuidar dos cardumes e tinha a capacidade de guiar os marinheiros e se disfarçar em outros animais. No mundo clássico era representado nas esculturas conduzindo uma carroça puxada por um hipocampo em pleno mar.

Sabendo que Perseu saía do mar para dormitar ao meio dia entre as rochas de uma praia frequentada por focas na Ilha de Pharos, Menelau se disfarçou com peles de focas juntamente com mais três marinheiros escolhidos a dedo com o objetivo de amarrar as mãos de Perseu e forçá-lo a indicar o caminho de volta para a Grécia. Quando Perseu deitou-se e começou a sesta, os amigos se moveram lentamente em sua direção como se fossem focas e conseguiram dominá-lo.

Conta a lenda que não foi fácil: Perseu se transmutou em leão, cobra, pantera e em um monstruoso javali. Mesmo assim, não conseguiu livrar-se das amarras de Menelau, e terminou indicando as tarefas que Menelau deveria seguir para achar o rumo de casa.

Na literatura, o termo ganhou a expressão proteiforme como qualidade daquilo que muda repentinamente, por astúcia ou ilusão.

Pois bem, os brasileiros deveriam usar a expressão a cada vez que uma operação de envergadura mutante dissimulada fosse posta em ação. Porque não há nada mais banal em nossos costumes do que mudar as coisas para fazer com que permaneçam como estão. Assim que a Lava Jato começou a ceifar figuras importantes da política nacional, e enxovalhar a reputação geral dos partidos, estes iniciaram imediatamente a mudança de nome. Os exemplos se multiplicam indefinidamente: a legislação eleitoral muda a cada dois anos. O STF vai e volta em decisões de acordo com o quadro político. Quando a burocracia apresenta uma falha estrutural, a solução vem na manga da camisa: fazer um recadastramento quando o público estiver envolvido, mas se os envolvidos forem os burocratas, a solução é uma reforma administrativa que consiste em mudar de nomes, preservar os cargos existentes, criar novos cargos, aglutinar pessoas – de preferência com novas funções e privilégios – e, depois, permanecer como sempre foi.

A Reforma da Previdência nem sequer chegou a final da tramitação e já temos anunciado que não será definitiva. O novo governo em 2023 deverá refazê-la.

Em períodos de crise, as operações proteiformes chegam ao cume de uma agitação espiritual frenética. Propõe-se mudar tudo, e um novo governo, seja municipal, estadual ou federal, coloca em movimento as mudanças funcionais que vão dar um toque de eficiência ao novo mandato. Mas tudo, naturalmente, continua como dantes: a cultura da mudança que não muda nada inspirou o título A Insondável Matéria do Esquecimento do meu último livro. Porque as mudanças são feitas para encobrir ultrajes, apagar vestígios, eliminar suspeitas, limpar reputações e produzir o esquecimento. E só. Em pouco tempo os nomes serão outros e ninguém mais se lembrará do passado que desaparece com novas siglas. Desde o descobrimento, o Brasil já está na quarta capital federal e, se bobear... cala-te boca.

Por natureza, o brasileiro tem a solução para "distorcer a sombra da vara torta". Só não sabe corrigir a causa primordial, o húmus de onde provêm as estratégias para que se esqueça do fracasso: a corrupção, que é a matéria viva e pulsante de nossa organização estatal. Esta não morre. Para manter a causa de todos os males é preciso estar mudando tudo, permitindo que os espertalhões sejam capazes de encontrar uma brecha no novo terreno por onde vão se esmerar em novas pilhagens.

Em meu artigo sobre o Sagrado e Profano no século XVII, falando do México, citei Octavio Paz: “Para Paz, a história é uma obsessão entre a grandeza e o esquecimento. Os povos têm uma relação com a história como a mente humana com a censura psíquica: ambos usam o esquecimento para evitar os fatos desagradáveis de seu passado.”

Não temos muita coisa para falar da grandeza do país porque nossos momentos estão tomados pela baixeza. Todo dia tem lama nova para se chafurdar. E o esquecimento tem outros paradoxos: quando alguém revira o passado e aponta as verdades, fruto do trabalho de uns poucos pesquisadores privilegiadíssimos pelo método e perspicácia de perceber do que se compõe “a insondável matéria do esquecimento”; os “esquecidos” não querem saber da verdade. Preferem as novas interpretações, novas narrativas dignificantes e, com ela, o perdão aos cafajestes, que funciona como a censura psíquica capaz de evitar que o passado tenha sido exatamente como o presente, porque ele sempre é louvado ou maldito conforme o interesse do "memorialista" pois, afinal, nada pode ser tão horrível quanto o que hoje está sendo presenciado como a mudança do nome da operação Lava Jato pelo procurador que ainda não tomou posse, mas já tem em mente a solução para a corrupção no país. Agora, a popularíssima conquista social de dezenas de mobilizações, com milhares de pessoas nas ruas, portanto o símbolo nacional de uma época, a chamada Operação Lava Jato, vai mudar de nome. É preciso apagar da mente do povo aquilo que ele passou a usar como identidade coletiva de um momento do país.

A corrupção tem princípios, tem aprendizado, tem sutilezas e muita soberba, e para um país atrapalhado entre a moralidade do altruísmo e a benevolência intrínseca das práticas de aliciamento de cumplicidades, todos os discursos políticos, os editoriais e os opinantes do mundo oficial conduzem os “esquecidos” para o evangelho das virtudes de que basta os homens serem bons para tudo mudar. Angelicalmente.